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Dez 2008/Jan 2009

Bancos contra a maré

Na contramão da crise, a fusão do Itaú com o Unibanco cria uma instituição capaz de competir no mundo

Roberto Luis Troster*
A maré mudou. Alguns sinais preanunciavam alguns problemas, mas ninguém antecipou a intensidade e a velocidade da mudança. As projeções de crescimento despencaram e os preços das commodities acompanharam. Um tsunami assolou o mercado financeiro: centenas de bilhões de dólares de riqueza se evaporaram, o crédito, mesmo com as injeções de recursos, está estancado e a volatilidade domina os mercados.

O futuro do mundo é outro. A onda está chegando ao Brasil, num momento em que a dinâmica da economia e do crédito estava arrefecendo. O mar é outro. Muita tinta está sendo gasta na gestão macroeconômica da crise, entretanto, há também surpresas positivas no horizonte. A fusão do Itaú com o Unibanco, a compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil e São Paulo como centro financeiro mostram o fazer acontecer na contramão da crise. São movimentos que vão gerar mais valor e mostram o potencial de mais valor ainda.

O Unitaú, ou o nome que for escolhido, nasce grande. Seus números impressionam, mais de 100 mil funcionários e ativos superiores a um quinto do PIB. Eram duas instituições com vocações semelhantes que ganharam sinergia e escala ao se juntar. Ambas começaram como pequenas casas bancárias que combinaram o crescimento orgânico com fusões e aquisições de outras instituições.

Há mais de meio século, o Unibanco, como a Casa Moreira Salles, e o Itaú, como o Banco Federal de Crédito, foram fundados pelos pais de seus atuais presidentes. De bancos de uma agência só, são agora conglomerados com todo o espectro de produtos financeiros, cobrindo todo o território brasileiro e com atuação internacional. A estratégia é consolidar a operação no país e avançar no exterior.

O Unitaú já é o maior banco do Brasil e da América Latina e o vigésimo do mundo. É um conglomerado competindo com instituições do mundo inteiro em condições de igualdade e com um bom desempenho na Argentina, no Uruguai, no Paraguai, no Chile e em Portugal e escritórios em todos os grandes centros financeiros do mundo.

Pode-se esperar uma expansão maior. México e Colômbia são os portos mais óbvios para estabelecer a hegemonia a curto prazo. Num momento em que o país está perdendo espaço no exterior por conta da queda do preço das commodities, o Unitaú está indo na direção contrária, exportando serviços bancários. Há também um impacto secundário. A instituição em outro país é uma cabeça de ponte que serve de porta de entrada para empresas brasileiras que queiram negociar com o país.

A operação de compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil tem um impacto no mercado interno. Há uma complementação nas duas estruturas e ganhos de escala a serem usufruídos. Até agora, os reflexos da concorrência bancária nos custos de serviços e nas margens foram fracos, pois, como o mercado bancário estava crescendo a taxas superiores a 20% ao ano, havia poucos incentivos a iniciar uma guerra de preços. Como é esperada uma desaceleração na expansão dos serviços bancários, haverá um estreitamento de margens mais rápido, exigindo mais eficiência das instituições. As redes da Nossa Caixa e do Banco do Brasil se complementam e a operação de crédito imobiliário do banco paulista pode ser replicada em todo o território nacional.

A operação do Unitaú poderia ser copiada pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco do Brasil. São duas instituições de vocações quase idênticas, voltadas para o varejo nacional, têm o mesmo acionista controlador - o Tesouro Nacional -, atuam em escala nacional e teriam sinergias consideráveis se operassem como uma só instituição. É difícil entender o porquê dessa não fusão. Há também espaço para uma fusão dos bancos federais de desenvolvimento: o BASA, o BNB e o BNDES. Haveria sinergias e ganhos de escala e de transparência consideráveis a serem usufruídos.

Outra oportunidade seria fazer de São Paulo um centro financeiro internacional à semelhança de Nova York, Hong Kong e Londres. A proximidade de empresas do mesmo setor gera complementaridades e apresenta benefícios nos relacionamentos entre as instituições, na contratação de mão-de-obra e na compra de insumos - além, é claro, de criar vantagens para o país-sede. É um processo que se auto-alimenta atraindo mais empresas e fornecedores que querem usufruir suas externalidades.

Na América Latina, São Paulo apresenta o melhor potencial como centro financeiro regional. Está bem localizada, dispõe de uma infraestrutura conveniente: aeroportos, hotéis, telefonia, etc.., e concentra a atividade financeira brasileira. A quase totalidade dos bancos privados nacionais, bem como outras instituições - a BM&F, a Bovespa, as clearings de ativos e CIP -, tem sua sede na capital paulista.

São Paulo tem também algumas desvantagens. A dificuldade em executar contratos, uma estrutura normativa defasada e o sistema tributário. Esses entraves deslocaram operações e empregos da Bovespa e do resto do mercado de capitais para o exterior. A aspiração de desenvolver um centro financeiro implica na adoção de políticas proativas com este objetivo: modernizar o quadro regulatório, racionalizar os procedimentos legais e a tributação, eliminar os depósitos compulsórios e investir em infraestrutura. Com isso, seriam gerados mais empregos e atraídos outros investimentos para o Brasil.

O setor bancário nacional é sofisticado e, diferentemente dos de outros países, evoluiu num ambiente econômico turbulento, com inflação galopante e volatilidade macroeconômica elevada, e conseguiu conceder crédito, rolar a dívida pública, preservar a poupança nacional e desenvolver sistemas de pagamentos, bolsas de negociação, derivativos financeiros e câmaras de compensação e liquidação eficientes e seguras.

Uma crise como a atual não assusta. É uma oportunidade concreta para o Unitaú, um avanço parcial para o Banco do Brasil e uma possibilidade para São Paulo.

* Roberto Luis Troster é sócio da Integral Trust  (robertotroster@uol.com.br)



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