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Dez 2008/Jan 2009

Rubens Ricupero: Obama pode revigorar os Estados Unidos

Para o ex-ministro da Fazenda, o Brasil terá boas perspectivas na saída da crise, mas vamos sofrer em 2009

Nely Caixeta e Armando Mendes
Ricupero: eles fazem as bobagens e nós pagamos

O embaixador Rubens Ricupero é um observador experimentado de tormentas econômicas, desde as crises do petróleo dos anos 70, que ele viveu, como diplomata, nos Estados Unidos. Sobre a crise que estamos atravessando, não hesita em afirmar que é a mais grave desde a Depressão dos anos 30, mas arrisca uma previsão otimista: ela será curta. Em 2010, o mundo poderá voltar a crescer - se o presidente Barack Obama e a estrelada equipe econômica que ele escolheu cumprirem a promessa de reativar a economia americana.

Para o Brasil e os emergentes, Ricupero prevê dias difíceis em 2009 e a recuperação a partir de 2010. No curto prazo, o governo brasileiro luta com um déficit e não tem dinheiro para sustentar a atividade econômica, como pode fazer a China - esta sim, para Ricupero, a única potência realmente emergente.

O embaixador falou à PIB no mesmo dia em que foi convidado a participar da comissão que a Assembléia Geral da ONU está criando para tratar da crise, presidida pelo economista norte-americano Joseph Stiglitz, conhecido crítico da globalização financeira. A seguir, a entrevista:


O senhor, que acompanhou a vida inteira a economia internacional, viu algum momento como este?
Nunca. Já vi momentos difíceis nos anos 70, quando servi nos Estados Unidos. Cheguei lá quando o presidente ainda era o Richard Nixon e assisti à sua queda em conseqüência do caso Watergate. Foi um momento terrível para o moral dos Estados Unidos, junto com o colapso do Vietnã e aqueles helicópteros partindo do terraço da embaixada americana em Saigon com as pessoas se agarrando nas rodas. Foi o momento dos choques do petróleo em 1974 e, mais tarde, em 1979. Havia filas para abastecer os automóveis e inflação em alta. Mas aquele momento não foi tão grave como hoje. A General Motors, que está ameaçada de falir, foi fundada em 1908! Resistiu à Grande Depressão. E, no entanto, se não for socorrida, o caixa dela acaba em fins de fevereiro. Os americanos não vão deixar quebrar. Eles censuram muito os outros quando são nacionalistas, mas não pensem que acham graça nesse tipo de coisa. São símbolos dos Estados Unidos.

Esta é, de fato, a crise mais grave desde 1929?
Não há a menor dúvida de que é. A crise de 29 leva esse nome porque foi o ano em que caiu a bolsa, mas começou mesmo com a falência de um banco de Viena, o Kredit-Anstalt, em 1931. É aí que ela se instala e vai durar muitos anos. Espero que a crise atual não se transforme em uma depressão, com deflação de preços, porque essa é a situação da qual é mais difícil sair. O Japão caiu nisso em 1990 e ficou sem crescer dez, onze anos, apesar de pacotes gigantescos de gastos em obras públicas.

O senhor acredita que a crise, pelo menos, seja menos longa?
Tenho esperança. Vamos ter um governo americano muito vigoroso. Os eleitores escolheram o homem mais bem preparado para enfrentar uma crise desse tipo. Barack Obama tem sido impecável na transição - não errou uma escolha até agora, sobretudo a do secretário do Tesouro, Tim Geithner, uma estrela em ascensão. Como diretor do Federal Reserve de Nova York, foi ele quem comandou a operação de resgate do Bear Stearns. Então, vamos ter um pacote de medidas anticrise muito forte, parecido com o que Roosevelt preparou em 1932, quando foi eleito. Compõe-se de pelo menos três elementos fundamentais. Primeiro, um vigoroso estímulo ao consumo e investimentos em infra-estrutura - estradas, energia, meio ambiente. Há muito tempo os Estados Unidos não atualizam sua infra-estrutura. Depois, ajuda às pessoas que estão ameaçadas de perder a casa por causa das hipotecas. E, por fim, haverá socorro à General Motors, à Chrysler, à Ford, às linhas aéreas. O fundamental, como Obama anunciou, com total razão, é manter ou criar emprego. Deixar falir a General Motors destruiria 2,5 milhões de empregos, diretos e indiretos. Ele não vai querer isso.

Quanto pode valer um pacote assim?
Martin Wolf, do Financial Times, avalia que pode chegar a 10% do PIB, hoje estimado entre US$ 14 trilhões e US$ 15 trilhões. Logo, chegaria a US$ 1,5 trilhão. O que não é tão extraordinário, porque eles já aprovaram um pacote de US$ 700 bilhões e gastaram US$ 100 bilhões para impedir a quebra da seguradora A.I.G.

Isso dá para reativar a economia?
Tenho confiança de que isso possa revigorar os Estados Unidos. Veja que há economistas de peso, como o próprio ganhador do Prêmio Nobel, Paul Krugman, que admitem até a hipótese de uma deflação muito longa, de dez anos. Não acredito, porque a economia americana é capaz de uma recuperação impressionante. Assisti a isso. Servi lá duas vezes: fui conselheiro-chefe do setor político da embaixada brasileira em meados dos anos 1970 e voltei como embaixador em 1991. A economia americana é de um vigor extraordinário e não se deve subestimar sua capacidade de recuperação. Essa crise deve durar uns dois anos - o que está acabando e o próximo. A partir de 2010, é possível que comece a recuperação. Tenho muita confiança no novo governo, competente, jovem, uma nova geração que chega ao poder.

O Brasil e os países emergentes ainda vão sofrer muito?
Os países emergentes já estão sendo atingidos. Aquela tese inicial de que havia um descolamento, hoje em dia ninguém leva a sério. O Brasil está entre os dois países em que tanto a moeda como a bolsa de ações têm oscilado mais violentamente. Ora, isso não é um bom sinal. A rigor, o único que está se saindo melhor - um pouco melhor, mas também já está sendo afetado - é a China. A Rússia está indo muito mal, a Índia está com problemas porque tinha déficit grande em conta corrente. O Brasil não está numa situação brilhante, ao contrário do que se dizia aqui. Emergente, só tem um mesmo, que é a China.

Que vantagens a China tem?
É um país que tem altíssima poupança doméstica, que chega às vezes a 44% do PIB. A do Brasil mal consegue 17%, 18%. O Brasil não é um país poupador. A China precisa pouco dos outros; tem uma enorme quantidade de dinheiro entesourada, está se aproximando de US$ 2 trilhões de reservas e não tem problema de gastar com pacotes fiscais, como fizeram em 1997, quando houve a crise asiática. Eles compensaram redobrando os programas de investimento interno, o que vão fazer de novo. Os chineses podem fazer isso porque não têm a preocupação do déficit. O Brasil não só não tem poupança doméstica como tem o problema do déficit e um custo da dívida alto. Tanto é assim que até hoje o Brasil mede suas contas pelo saldo primário, que exclui as despesas financeiras, e não pelo saldo nominal. Logo, o governo não tem grande espaço para aumentar seus gastos. Mesmo o PAC, que é uma retomada bem-vinda dos investimentos, apenas eleva o investimento de 0,5% para 1% do PIB, o que não é nada. O governo, infelizmente, tem gasto muito em despesas correntes: pessoal, cargos, aumentos de salários. São despesas improdutivas.

Que outros problemas o Brasil vai ter?
A dependência brasileira vem, esquematicamente, de duas direções. Por não ter poupança própria, o país é obrigado a recorrer à poupança externa. Quando ela seca, como agora, passamos a viver um problema agudo de pressão sobre a moeda. Não vejo bem como resolver esse problema a curto prazo, porque muitos dos investimentos que vinham para cá eram atraídos pela valorização das commodities, que agora estão em queda.

E o segundo problema?
É o comércio. O Brasil, ao contrário do que a maioria dos brasileiros pensa, tem um comportamento econômico que é espelho direto da América Latina. Tudo o que acontece na América Latina acontece aqui. Quando a América Latina ia mal, entre 1998 e 2002, o Brasil não crescia. Quando a América Latina cresceu 5,5%, de 2003 até 2008, o Brasil cresceu menos que isso, mas cresceu. A razão foi a mesma - a melhoria dos preços das commodities em relação aos preços de importação. Até devo dizer que o caso do crescimento do Brasil não foi o mais impressionante da América Latina, e sim o dos exportadores de metais, sobretudo Peru e Chile.

E o que acontece agora?
O comércio começou a cair antes do auge da crise. Segundo o relatório de novembro da Organização Mundial de Comércio, as trocas mundiais, descontadas a inflação e as oscilações cambiais, cresceram 8,5% em 2006. Em 2007, o avanço foi de apenas 6%. Para 2008, a OMC previu, em abril, 4,5%. Agora não se atreve a fazer mais nenhuma previsão. O comércio mundial está em maré minguante. Há menos demanda. Portanto, a concorrência se acirra e os preços das commodities estão caindo. E isso vai nos atingir, porque nós somos um país basicamente exportador de commodities.

Mas continuarão caindo? Há visões diferentes a médio prazo.
Não estou falando do médio prazo, estou falando do curto prazo, de 2009. Acho que a médio e longo prazo a situação é boa. Se se confirmar meu otimismo de que esta crise vai ser relativamente curta e de que a partir de 2010 a economia mundial retomará seu crescimento, o Brasil estará em boas condições para voltar a crescer. A riqueza em recursos naturais, o petróleo do pré-sal ? tudo isso ganha valor numa economia em crescimento.

O senhor acredita em quebradeira de empresas em 2009?
No Brasil? Não. Mas é preciso traduzir em miúdos o que estou dizendo. Vai ser um ano difícil, mas não de recessão. Se o Brasil crescer 2% ou 2,5% não é mau, porque nosso crescimento demográfico hoje é bem pequeno. Não vejo nenhuma catástrofe. Apenas acho uma pena, porque estávamos naquela fase de conseguir recuperar o tempo perdido, melhorar o consumo das classes populares, reduzir um pouco essa miséria terrível, e agora tudo isso parece um pouco adiado. Para podermos absorver o desemprego - que ainda é de 8,5%, no mínimo - e a miséria acumulada, teríamos de crescer pelo menos a 5% durante 30 ou 40 anos ininterruptos. E não é isso que vamos crescer no ano que vem. A não ser que haja um milagre mundial. Deus queira.

Qual vai ser o impacto para as empresas brasileiras internacionalizadas?
Elas vão ter um período mais difícil. Mas também não significa uma catástrofe. Os preços vão cair, vão vender menos. Se não tiverem grandes dívidas, vencerão esse período, porque o tempo de vacas gordas que atravessaram é muito recente. Até quatro, cinco anos atrás, o preço do minério que se vendia para a China era três vezes menor que o frete marítimo. Não valia nada. Se sobreviveram naquela época, por que não o fariam agora?

O senhor acredita que os países em desenvolvimento podem sair da crise com um peso maior nas relações internacionais, como alguns esperam?
Seguramente sim. Já agora estão sendo solicitados a um maior papel. E nem é uma coisa tão nova quanto parece, porque o grupo dos 20 surgiu em 1999, no âmbito do Banco Mundial e do Fundo Monetário. Foi criado depois das crises da Ásia, da Rússia e do Brasil nos anos 90, com o objetivo de melhorar o funcionamento do sistema para prevenir a repetição das crises. Portanto, a idéia já era juntar os países em desenvolvimento mais fortes ao grupo de países ricos. Mas é preciso ser específico. Do que se fala, quando se fala nos emergentes? É um erro falar como se todos eles fossem iguais. Na verdade, mais uma vez, a China é um primus inter pares. De longe, é o mais poderoso desses países. E o mais discreto.

Há quem fale no surgimento de uma nova arquitetura econômica no mundo.
É preciso não ter expectativas exageradas. Não acredito que haverá um segundo Bretton Woods, porque lá se criou a atual ordem econômica e financeira, que passa por uma crise mas não foi destruída, como aconteceu com a anterior, na II Guerra Mundial. E, nessa matéria, como os interesses são gigantescos, as pessoas são muito conservadoras e não querem grandes revoluções. As questões ligadas à moeda de referência, às reservas, são muito delicadas. Quem faz afirmações levianas são os que não têm dinheiro. Por isso que os chineses são muito discretos. Eles têm US$ 2 trilhões de reservas e não querem bagunçar o coreto. Se derrubarem o coreto, cai em cima deles.

O mundo sairá desta crise com os mercados mais regulados?
Os países líderes, como Estados Unidos e Inglaterra - as duas maiores praças financeiras do mundo são Nova York e Londres - dificilmente aceitarão delegar a autoridades internacionais a supervisão de seu setor financeiro. Nos Estados Unidos, ele responde por 40% dos lucros totais das corporações. Agora, vai haver mais controles, porque o próprio secretário do Tesouro, Henry Paulson, que era contra, se converteu. Então, vai haver alguma regulação. Mas vai ser feita por eles, não por nós. Os americanos provocaram essa crise e nós pagamos um preço. Infelizmente, o mundo atual é assim. Eles fazem as bobagens, e nós pagamos.

foto: Divulgação IBP



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