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Dez 2008/Jan 2009

A aposta da Totvs

Médias e pequenas empresas sustentam o negócio da tecnologia de
gestão mesmo em tempo de crise

Vicente Vilardaga

Se o cenário agora parece mais hostil para os negócios, com crise financeira global e ameaça de recessão mundial, na Totvs (pronuncia-se Tótus), maior fabricante brasileira e nona fabricante mundial de sistemas de gestão integrada - concorrente direta de gigantes como SAP e Oracle, tanto no Brasil quanto no exterior - a atmosfera parece serena. O meio ambiente favorece a sensação de sossego: a bela sede da empresa, cercada de jardins, está situada em uma zona arborizada no bairro da Casa Verde, em São Paulo, e tudo ali inspira tranquilidade.

O presidente da companhia, Laércio Cosentino, que gosta de cozinhar pessoalmente para clientes e amigos numa cozinha profissional instalada no prédio onde trabalha, é a personificação dessa serenidade. Cosentino, engenheiro de 48 anos, formado pela Escola Politécnica da USP, está convencido de que a indústria brasileira de softwares tem tudo para passar ilesa e até mesmo continuar a crescer aqui e lá fora nesse novo cenário conturbado.

O prognóstico otimista decorre da demanda da carteira de clientes, formada sobretudo por pequenas e médias empresas no Brasil, onde a Totvs tem 38% do mercado, e no exterior, onde tem boa presença e fortes ambições (veja os números da empresa). "Grandes empresas já informatizadas ou países com alto grau de uso de TI postergam investimentos em momentos de crise", diz Cosentino. "O mesmo não acontece com as de menor porte: precisam continuar investindo em tecnologia para ganhar competitividade."


Crescer na vizinhança

A Totvs tem uma estratégia de crescimento por aquisições e conquista de mercados, com o apoio do BNDES, que advoga a existência de uma grande empresa nacional, com escala e capacidade para concorrer globalmente. Desde que fez sua oferta pública inicial de ações em 2006, que lhe rendeu R$ 460 milhões, a Totvs concluiu sete aquisições. Em julho passado, a empresa deu novo salto com a compra da catarinense Datasul - um negócio de R$ 700 milhões.

A aquisição colocou a Totvs em países em que não atuava - como a Colômbia - e criou sinergia e fortalecimento de operações onde ambas as empresas já haviam fincado seus logos - como a Argentina e o México. "A superposição só ocorreu em Buenos Aires e na Cidade do México, onde existiam unidades próprias", diz Cosentino. "Nas demais regiões funcionavam franquias."

As vendas externas da Totvs, concentradas sobretudo na América Latina e na África, representam hoje cerca de 6% de seu faturamento e vêm crescendo de modo lento mas sustentável. Os concorrentes locais são pequenos e sem capacidade para atender a demanda. Cosentino diz que nos países onde a Totvs atua ainda não houve queda generalizada na atividade econômica.

Há desaquecimento setorial, entre clientes latino-americanos relacionados com a indústria automobilística dos Estados Unidos. E o mercado mexicano tende a ser o mais afetado a curto prazo, por conta de sua forte dependência da economia norte-americana. Similar, na forma e na operação, à do Brasil, a subsidiária mexicana conta com 185 funcionários e atende uma base de 350 clientes.

A Totvs organizou suas operações na América Latina com centros de comando em Buenos Aires e na Cidade do México. A partir dessas cidades, atende uma área que inclui 14 países. De Lisboa, onde se localiza seu escritório na Europa, a empresa cobre também os mercados da África, em especial Angola e Moçambique.


Investimentos mesmo na crise

Para atender os mercados de língua portuguesa e espanhola, a Totvs concentra o trabalho de desenvolvimento de softwares em São Paulo e em Córdoba, na Argentina. "A Totvs foi criada para consolidar o mercado latino-americano de sistemas de gestão e se tornou muito competitiva na sua atuação internacional", diz Cosentino. "Ganhamos escala e, entre 2006 e 2008, nossa margem de lucro aumentou de 14% para 21%." Nas operações internacionais, a Totvs adotou um modelo de operação híbrido, da mesma forma que faz no Brasil, onde combina franquias próprias com franquias de terceiros. Essas franquias podem atuar tanto na distribuição como no desenvolvimento de sistemas.

O mercado de softwares de gestão integrada crescerá menos em 2009, mas crescerá. Segundo o mais recente estudo da consultoria IDC sobre o mercado latino-americano, divulgado no fim de novembro, os investimentos em TI vão aumentar 7,8% na região (a estimativa antes da explosão da crise era 13,7%). No Brasil, a previsão de crescimento foi corrigida de 14,4% para 9,1%.

A pesquisa mostra que o mercado de TI da América Latina será um dos menos afetados pela crise global. As projeções de expansão de vendas de softwares e serviços relacionados com o aumento da produtividade e melhoria de desempenho das empresas caíram pouco na região. No caso dos softwares, esperava-se, até setembro, um crescimento de 12,1% nas vendas em 2009. Em novembro, a estimativa caiu para 10%.

Nos serviços, a diminuição da taxa de expansão projetada foi de 10,7% para 8,6%. A intenção de compra de sistemas de gestão integrada e de softwares de gestão do relacionamento com o cliente (CRM), segundo a apuração do IDC, continua em alta. "Embora o mercado como um todo cresça, a gente nota que a crise atinge primeiro as grandes empresas e alguns setores específicos", diz Cosentino. "Quanto menor você for, menos será afetado a curto prazo."

A seu ver, tanto em períodos de prosperidade quanto nos de dificuldade, os investimentos em sistemas de gestão tendem a crescer porque as empresas buscam aperfeiçoar sua eficiência e conhecer melhor seus números para reduzir despesas e orientar projetos de reestruturação. "Na crise, as empresas querem aumentar o controle sobre sua operação para sobreviver", afirma. "Na bonança, é estratégico se preparar para crescer."


As vantagens da complexidade

O otimismo de Cosentino se sustenta em bases sólidas. O mercado de softwares de uso corporativo vem crescendo há anos de modo constante, sem sobressaltos e independentemente de crises. A Totvs, em particular, passa ao largo de alguns pontos de vulnerabilidade do negócio, graças à oferta de produtos direcionada para vários setores, diversificando o risco de que um ou outro sofra mais ou menos com o psicodrama financeiro e macroeconômico que se alastra pelo mundo.

Uma curiosa vantagem competitiva da indústria brasileira de softwares de gestão é que ela conseguiu criar aplicativos confiáveis e de alto desempenho para seu mercado internacional partindo da realidade brasileira. O Brasil é um país quase bizantino em suas questões fiscais e trabalhistas. Para desenvolver um sistema de gestão contábil ou de recursos humanos, por exemplo, é preciso atender a um emaranhado de pré-requisitos legais que são incomuns em outros mercados. Isso acaba gerando produtos complexos, mas flexíveis e de ampla aplicação.

O mercado financeiro dá sinais de que aprova o desempenho da Totvs. Enquanto o Ibovespa, índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), caiu 33% entre 30 de setembro e 31 de outubro, as ações da empresa caíram 21%. Mesmo com a queda abrupta de novembro, sua valorização, desde a abertura do capital, em março de 2006, foi de 18,75%.

"Fizemos tudo que nos propusemos a fazer, consolidamos a maior empresa de softwares do Brasil, com várias aquisições, e demos uma boa resposta para nossos investidores", diz Cosentino. No terceiro trimestre de 2008, a empresa teve aumento de receita pelo 15º trimestre consecutivo, além de conquistar 705 novos clientes, que passaram a 22,5 mil. A receita líquida alcançou R$ 218,5 milhões, 29,7% superior à do mesmo período de 2007.

O lucro líquido ajustado atingiu R$ 34 milhões. A Totvs encerrou o mês de setembro com R$ 144 milhões em caixa. Entre janeiro e setembro, a receita líquida da Totvs e da Datasul somou R$ 662,27 milhões. "Sempre crescemos mais em períodos de crise do que na normalidade", diz Cosentino, referindo-se à história da Microsiga, a empresa que deu origem à Totvs, criada 25 anos atrás, em um período de turbulência política e inflação alta. "Temos de entrar em 2009 magrinhos, sem desperdício", diz Cosentino. "Toda crise tem uma relargada, e quem estiver com pneu trocado e tanque cheio tem grande possibilidade de crescer."



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