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17/06/2016

Aprendizes do MIT

Empresas recorrem ao Massachusetts Institute of Technology para crescer

SUZANA CAMARGO
Produtora de chocolates orgânicos finos, a AMMA utiliza matéria prima da região mais tradicional de plantio de cacau do Brasil: a Bahia. Os tabletes da marca podem ser encontrados em cafés e lojas de cidades dos Estados Unidos, Dinamarca, Suécia e Japão. Já a catarinense Neoway Business Solutions trabalha com Tecnologia da Informação,
oferecendo soluções para análise de big data e prevenção de fraudes digitais.

O que estas duas empresas tão distintas têm em comum? Ambas participaram, recentemente, de um programa de aprendizagem prática oferecido pela Sloan School of Management, a escola de gestão de uma das mais prestigiosas instituições de ensino e pesquisa do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, de Cambridge, nos Estados Unidos — mais conhecido pela sigla MIT, que dispensa apresentações.

Criado no ano 2000, o Laboratório Global de Empreendedorismo (G-Lab) da Sloan School trabalha prioritariamente com empresas de pequeno e médio portes de países emergentes em busca de ferramentas para
crescer. O Brasil tem sido, desde sempre, um demandante assíduo dos serviços do G-Lab.

Na rodada mais recente do programa — de setembro de 2015 a janeiro de 2016, período que corresponde a um semestre do ano curricular americano —, cinco equipes de quatro alunos de MBA das áreas de administração, engenharia e tecnologia fizeram uma imersão em cada uma das empresas brasileiras participantes. Por meio de uma combinação O G-Lab equivale a uma consultoria com propósitos bem práticos e específicos, foi orientado e supervisionado pelos professores e mentores da Sloan MIT (leia mais sobre o MIT e as condições para participar do programa na pág. 24).

Para as empresas-host, o programa é uma bem-vinda transferência de conhecimentos e ferramentas de gestão. A AMMA — a fabricante de chocolates da Bahia — usou a oportunidade para aprofundar seu conhecimento do mercado norte- -americano de produtos orgânicos, no qual pretende investir mais fortemente.

“Eles nos trouxeram muitas pesquisas de mercado, mostrando as tendências, os gargalos e as oportunidades de expansão”, conta Diego Badaró, um dos sócios.

Já a Intelie, do Rio de Janeiro — empresa de tecnologia que também participou desta edição do G-Lab —, recorreu ao programa para reforçar seu mindset global e incrementar a capacidade de planejamento.

“Como somos uma startup, acabamos nos concentrando muito na execução de trabalhos, no caixa, no cliente e, por vezes, pecamos no planejamento”, constata o engenheiro eletrônico Ricardo Clemente, um dos fundadores.

“Pela primeira vez, tivemos conosco quatro pessoas brilhantes fazendo um plano estratégico minucioso, com uma estruturação de qualidade; isso foi muito importante para a gente.”

A contrapartida, para os alunos da Sloan MIT, é a oportunidade de transportar para o mundo real o conteúdo dos livros, debates e pesquisas da universidade. “Nosso intuito é que os alunos aprendam sobre empreendedorismo, ao mesmo tempo que as empresas lucram com o conhecimento trazido por eles”, diz Michellana Jester, coordenadora do G-Lab. “Queremos que haja um benefício mútuo.” Jay Sherman, um dos integrantes da equipe que assessorou a Neoway, de Santa Catarina, conta como se desenvolveu o trabalho.

“Depois de uma pesquisa e entrevistas extensivas, montamos uma estratégia de preços e uma estrutura para a entrega de dados via API, um produto novo que a Neoway está lançando”, diz ele. “Nossas recomendações foram bem recebidas pelo time executivo e forneceram diretrizes para a abordagem de uma questão delicada e de grande importância para a empresa.”

Nos 16 anos da iniciativa, 375 empresas, de aproximadamente 50 países, já fizeram parte do programa. O MIT não informa o número de empresas participantes desmembrado por país de origem; segundo Michellana, o Brasil se tornou, nesse período, o destino mais popular entre os participantes.

“O país tem um mercado enorme e diversificado, além de abrigar algumas das companhias de tecnologia mais inovadoras do mundo”, ela explica. Em média, cinco empresas brasileiras são selecionadas a cada ano. Entre as startups nacionais que já passaram pelo G-Lab em rodadas anteriores, podem ser citadas a Ebanx e SambaTech. A primeira delas, com sede em Curitiba, oferece soluções de pagamento online para sites do mundo todo.

Em 2013, já tinha clientes como Facebook, Sony PlayStation, Wish e Spotify. No ano passado, conquistou a conta do Airbnb e este ano, do AliExpress. Em 2015, também iniciou operações físicas no México — o sistema da Ebanx é utilizado por cerca de 10 milhões de consumidores no mundo. A mineira SambaTech, pioneira na América Latina na distribuição de vídeos online, é outra que trabalha no universo digital. Premiada internacionalmente, tem no portfólio clientes como O Boticário, TV Globo, SBT, Editora Abril, Azul Linhas Aéreas e Hospital Albert Einstein.

A SambaTech acaba de anunciar que está abrindo um escritório em Seattle, nos Estados Unidos. Na edição 2015/16 do G-Lab, empresas de tecnologia predominaram entre as brasileiras escolhidas. Além da AMMA, da Neoway e da Intelie, a paulista Splice e uma quinta companhia que não quis ter o nome divulgado formaram o time canarinho. Em comum, elas têm a ambição de se tornarem globais — uma das razões que as levaram a procurar o G- -Lab. Antes mesmo de se candidatar à consultoria, a Intelie, a Neoway e a AMMA já haviam cruzado fronteiras para oferecer produtos e serviços em outros países. Neste momento, coincidentemente ou não, as três têm os olhos voltados para o tentador (e exigente) mercado americano.

A seguir, as histórias dessas três participantes de 2015/16.

:: Intelie Assim como a Neoway e boa parte das companhias de tecnologia do mundo — só para lembrar, o Facebook foi criado nos dormitórios da Universidade de Harvard —, a Intelie também surgiu na academia, a partir de uma tese de mestrado na área de computação. “Estava fazendo um trabalho em que utilizava técnicas de inteligência artificial e senti falta de ferramentas analíticas que me ajudassem a tomar uma decisão em tempo real”, conta Ricardo Clemente, um dos fundadores da empresa.

A partir dessa necessidade, o engenheiro eletrônico criou o protótipo da ferramenta IEM (Intelie Event Manager), que monitora para os clientes a infraestrutura e o desempenho de seus serviços de tecnologia da informação. Foi para transformar o software num negócio que, em 2008, o então estudante de mestrado em Ciência da Computação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) convidou três colegas — Hubert Fonseca, Jorge Falcão e Pedro Teixeira — para fundarem a Intelie.

Hoje, a ferramenta criada há oito anos chama-se Intelie Live e fornece aos clientes indicadores em tempo real de seus processos — por exemplo, para uma operação de comércio eletrônico, ela monitora o volume de recursos captado, as transações por minuto, o tempo de resposta do site, os pedidos entregues no prazo e as falhas durante o processo de comercialização de produtos e serviços. Desde cedo, os quatro sócios perceberam o potencial inovador da plataforma e a importância da exposição internacional.

Já apresentaram cases da Intelie em Cambridge, na Inglaterra, em 2010, e na Surge Conference, em Baltimore, nos Estados Unidos, no ano seguinte. “Quando fomos finalistas de uma competição na Alemanha, ao lado de 50 concorrentes mundiais, olhamos para o lado e percebemos que nossa tecnologia não deixava nada a desejar diante de empresas internacionais do setor”, lembra Clemente. “Estávamos jogando de igual para igual, mas sempre acreditamos que precisávamos ser competitivos globalmente para não morrer a longo prazo.”

A Intelie procurou a parceria com a Sloan MIT para planejar a expansão internacional; em especial, para entrar no mercado de extração de óleo e gás dos Estados Unidos. Antes de completar uma década, a startup carioca tem no currículo cases de sucesso com empresas como a Globo.com e a multinacional Walmart, além de Vale, Petrobras, Magazine Luiza e SulAmérica. Partir para o mercado global sempre foi um projeto a ser pensado com cautela, pelos investimentos que exige e pelos riscos envolvidos, diz Clemente. “Este ano, decidimos ir em frente.”

O projeto tomou a forma de um escritório a ser aberto em Houston, no Texas — um local estratégico para o setor de energia. Estão lá alguns gigantes do mundo, como Exxon- Mobil, Shell, ConocoPhillips, Baker Hughes, entre outros. A perspectiva surgiu depois da conquista de uma conta da Petrobras. Para atender a estatal, a Intelie desenvolveu softwares de análise de dados exclusivos para o setor de óleo e gás, que tornaram possível diminuir prazos e custos na perfuração de poços.

Segundo Ricardo Clemente, o novo escritório deve ser inaugurado em maio e exigiu investimento de 500 mil reais, o que representa quase 10% do faturamento da empresa no ano passado. A startup de TI já atua no exterior, em pequenos contratos com empresas situadas em Macau, na Indonésia e nos Estados Unidos. Foi para iniciar uma operação mais robusta e madura, no coração da indústria de óleo e gás dos EUA, que a companhia brasileira pediu a ajuda dos estudantes do MIT.

Quanto aos resultados concretos da consultoria, a Intelie prefere manter reserva, explicando que passaram a fazer parte do plano estratégico da empresa. De toda forma, estar vinculada aum programa de uma das maiores instituições de saber do mundo traz credibilidade e visibilidade para a empresa — algo muito necessário para uma startup que tem por meta levar as operações internacionais a representar 50% de sua receita nos próximos três anos. Para chegar a esse resultado ambicioso, além da consultoria do time da Sloan MIT, a Intelie fechou parceria com uma empresa desenvolvedora de negócios de Boston, de olho em outro segmento do mercado americano: o de varejo e seguros. “Temos planos agressivos para os Estados Unidos”, conclui Clemente.

:: Neoway
Sediada em Florianópolis, com escritórios comerciais em São Paulo e Porto Alegre e um centro para pesquisa e desenvolvimento instalado em Palo Alto, na Califórnia, a Neoway nasceu no meio acadêmico. Era 2002, e o engenheiro eletricista Jaime de Paula, fundador e CEO da empresa, desenvolvia tese de doutorado sobre a integração de diferentes bases de dados numa única plataforma.

Paula criou para a Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina um software que identificava padrões entre ocorrências policiais e ajudava a encontrar criminosos. O case chegou ao conhecimento da Polícia de Nova York, que o convidou a falar sobre ele. Nos Estados Unidos, Paula conheceu o conceito big data — tecnologias que permitem a análise de um volume imenso de dados com velocidade espantosa. Paula decidiu concentrar os esforços na área da Neoway no big data, então uma novidade, e combiná-lo com a ferramenta do georreferenciamento: ou seja, criar um sistema que, além de fornecer informações estratégicas, fizesse um cruzamento de dados e alternativas de ação com base na localização geográfica dos clientes, mapeada a partir de satélites em órbita da Terra.

Hoje, a empresa catarinense trabalha com mais de 3 mil bancos de dados de 600 fontes e utiliza, aproximadamente, 300 milhões de endereços. Há dois anos, recebeu o aporte de três grandes fundos de investimentos. Por trás do dinheiro, dois executivos de peso no mercado brasileiro: Mauro Muratório Not e Emilio Umeoka, ex-presidentes da Microsoft no país (Not fez parte do conselho da B2W, dona dos sites Americanas.com e Submarino).

Paula tomou conhecimento do G-Lab em 2013, quando participou do programa Endeavour, organização que promove o empreendedorismo inovador em mais de 20 países. Desde então, a empresa de Florianópolis teve três projetos selecionados pelo MIT.

Em 2013, os estudantes ajudaram a companhia a formatar sua área de relacionamento com os clientes; em 2014, mapearam pontos fortes e fracos da empresa a partir de entrevistas com esses clientes, participando do desenvolvimento de interfaces mais simples e confiáveis; no projeto mais recente, a equipe da Sloan MIT auxiliou na definição de estratégias de precificação dos dados a ser fornecidos aos usuários.

Os quatro integrantes da equipe 2015/16 da Neoway são Ankita Kaul, Catalina Araya Cohen, Jay Sherman e Michele Minetti, estudantes do segundo ano do MBA (todos os participantes do programa cursam o segundo ano). “Eles se aprofundam no benchmarking internacional, ou seja, nas melhores práticas dos Estados Unidos, da Europa e do próprio Brasil”, explica Paula. “Além disso, estudam a situação local da empresa para sugerir áreas a ser trabalhadas dentro de cada projeto.”

Para Jay Sherman, a experiência de trabalhar abaixo da Linha do Equador foi reveladora em mais de um aspecto. “A Neoway permitiu que tivéssemos um impacto na organização, ao nos dar responsabilidades, acesso e confiança”, ele explica. “Mais importante, ainda, eles foram muito além de sua responsabilidade profissional e fizeram com que nos sentíssemos em casa; parecia que todos que encontrávamos queriam nos mostrar o que curtiam no Brasil.”

A equipe do MIT, segundo Sherman, teve recompensas muito além do desenvolvimento de sua expertise em precificação de dados. “Também descobri que os brasileiros trabalham duro e são calorosos e sensíveis”, diz ele.

“Minha experiência no Brasil me proporcionou uma compreensão melhor de como trazer mais calor às relações profissionais, o que torna o trabalho mais recompensador.” A Neoway tem, hoje, mais de 350 clientes em setores como finanças, telecomunicações, construção civil, automotivo e varejo. Alguns destes clientes brasileiros atuam na América Latina e pediram que a empresa os atenda lá fora.

O desafio foi aceito, conta Paula. “Estamos com parcerias fechadas no México, Chile, Peru, Colômbia e Argentina, onde devemos começar a atuar em 2016, com a abertura de escritórios comerciais.” O passo mais ambicioso está previsto para meados de 2017, quando a companhia vai colocar o pé definitivamente nos Estados Unidos, onde já possui alguns clientes. A Neoway pretende começar pelo setor de finanças nos estados da Califórnia e Flórida.

A expectativa de Paula é que, em 2017, as operações internacionais representem de 10% a 15% do faturamento da Neoway; hoje, estes números ficam entre 2% e 5%. :: AMMA Desde 2012, o cacau gourmet produzido pela AMMA, de Diego Badaró e seus sócios, Luiza Olivetto e Frederick Schilling, é utilizado por renomados mestres chocolateiros internacionais, como o francês François Pralus. As barras de chocolate orgânico são vendidas em empórios e confeitarias da Inglaterra, França e destinos mais exóticos, como Kuait e Coreia do Sul.

Nos últimos quatro anos, a marca brasileira expandiu- -se tanto no mercado internacional como no interno. Possui mais de 700 pontos de venda no Brasil, entre eles, estandes em dois dos shoppings mais sofisticados do Rio de Janeiro. “Pretendemos chegar ao fim de 2016 com 2 mil pontos de venda”, afirma Badaró. No ano passado, o empresário investiu alto para pôr os pés em São Paulo.

Inaugurou a Casa do Sabor AMMA, instalada na Vila Modernista, um marco arquitetônico da década de 1930 encravado no exclusivo bairro dos Jardins. Além de uma loja-conceito, Badaró — descendente de uma linhagem tradicional de produtores de cacau da Bahia — idealizou o local como um centro de debates e exposições sobre o universo do chocolate e a preservação ambiental, tema muito caro a ele. Toda a produção de suas fazendas e dos fornecedores segue as regras do fair trade, um conjunto de normas internacionais que regulamentam o plantio do cacau de maneira ambientalmente sustentável, promovendo o reflorestamento de áreas de Mata Atlântica nativa, e também exigem um compromisso com a oferta de trabalho digno e bem remunerado para todos os envolvidos na cadeia produtiva.

É com este diferencial que o empresário quer ganhar mais espaço nas prateleiras americanas. Já de saída, chamou a atenção da equipe de seleção da Sloan MIT ao ganhar uma vaga no G-Lab. “Estivemos lá uma semana para conhecer o MIT e o grupo que trabalharia conosco aqui no Brasil”, conta Luiza. “Havia um interesse grande deles em conhecer uma empresa como a nossa, com caráter conservacionista, que busca a preservação da Mata Atlântica.” Segundo Diego, um dos principais desafios da fabricante brasileira é definir os preços de seus produtos.

Por causa da produção orgânica, mais cara, os chocolates que fazem podem custar, no Brasil, duas vezes mais do que um tablete tradicional. A equipe do MIT ajudou a empresa a planejar sua oferta nos Estados Unidos, dando aos sócios da AMMA instrumentos para avaliar melhor as margens que poderão aplicar.

Badaró avalia que as informações trazidas pelos estudantes da Sloan MIT foram um ótimo aporte ao conhecimento desse mercado em expansão. “Tivemos um panorama detalhado do momento atual dos orgânicos nos Estados Unidos”, diz ele. Hoje, os EUA são o terceiro maior importador da AMMA, atrás da Dinamarca e da Suécia. “O segmento de orgânicos aumenta, em média, 15% ao ano, e neste espaço ainda temos muito a crescer”, aposta Badaró. “Tanto na Escandinávia como no resto da Europa e nos Estados Unidos, este é um nicho muito forte; mas, de todos eles, o mercado americano é certamente o maior”.


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