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08/07/2015

A fome com a vontade de comer

O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, traz ofertas de investimentos num momento em que país mais precisa

Eliana Simonetti
Ao iniciar a leitura desta reportagem, devemos ter em vista alguns cenários. O Brasil tem um déficit na estrutura de sua balança de pagamentos. Portanto, remete mais dólares ao exterior do que recebe, o que o obriga a pensar no curto prazo, em tapar o ralo por onde escoam seus recursos. A China tem câmbio fixo desvalorizado, portanto, vivencia a entrada de dólares em grande volume.

Já fez reservas em títulos do Tesouro americano e agora busca alternativas de investimento para evitar a inflação no mercado interno. Seu olhar está no longo prazo, no crescimento de sua influência em novos mercados. Há um casamento perfeito entre os dois cenários. Foi com esse pano de fundo que o Brasil recebeu, em maio, a visita do primeiro-ministro chinês Li Keqiang.

A viagem aconteceu menos de um ano após a vinda ao Brasil do presidente da China, Xi Jinping, quando foram assinados mais de 50 acordos. Li Keqiang encontrou-se com a presidente Dilma Rousseff para selar 35 acordos de investimentos da China no Brasil. Os 150 empresários chineses que faziam parte da comitiva do primeiro-ministro encontraram-se com empresários brasileiros na Cúpula Empresarial Brasil–China, realizada no Palácio do Itamaraty, em Brasília.

A visita do primeiro-ministro da China foi mais um passo num longo – e às vezes difícil – caminho de reconhecimento e aproximação entre os dois países. O governo chinês fez, desta vez, um movimento notável – ofereceu 53 bilhões de dólares (valor que pode chegar a 80 bilhões de dólares) em investimentos no Brasil, em áreas variadas – principalmente infraestrutura, um setor estratégico cuja modernização, além de propiciar bons negócios em si, vai tornar mais eficiente o comércio de matérias-primas do Brasil para o parceiro asiático.

Um rápido olhar sobre as áreas nas quais os chineses decidiram pôr dinheiro mostra tanto o fôlego dos investidores como a amplitude de suas necessidades. Foram dois acordos de financiamento com a Petrobras, num total de 7 bilhões de dólares. Com a Vale, foram assinados memorandos de financiamento de um projeto de compra de um total de 24 navios de transporte de minério de ferro por parte de duas estatais chinesas, a Cosco e o Grupo China Merchants.

Foi formalizado, também, o compromisso de investir em um polo siderúrgico no estado do Maranhão e reafirmada a intenção de investir na processadora de milho em Maracaju, em Mato Grosso do Sul. No caso da carne bovina produzida no Brasil e comprada pela China, assinou-se um acordo de cooperação sobre saúde animal e quarentena animal. Tal acordo permite a oito frigoríficos brasileiros exportar carne bovina para o país asiático.

Foram firmados, também, entendimentos nas áreas de energia e telefonia. O mais ambicioso projeto nesse pacote, entretanto, é a construção da ferrovia interoceânica que, se concretizado, ligará o Porto do Açu, no Rio de Janeiro, ao Porto de Ilo, na costa do Peru. O corredor de trilhos entre os oceanos Atlântico e Pacífico deve cortar vários estados brasileiros e passará por três países – inclusive os Andes e a Amazônia, numa empreitada e tanto –, abrindo, assim, um atalho para os produtos brasileiros, como grãos e carnes, sem que a carga, rumo à China, precise passar pelo Canal do Panamá.

Motivações geopolíticas à parte, o interesse dos chineses é baixar os custos do fornecimento de matérias-primas e, principalmente, de alimentos brasileiros para as indústrias e os consumidores chineses. A China é, hoje, o principal parceiro comercial do Brasil. O mercado brasileiro representa o nono mais relevante para os chineses.

As transações comerciais em ambas as direções somaram 77 bilhões de dólares em 2014. Além do comércio crescente, a proximidade entre os dois países está sendo reforçada por outro movimento – o de empresas chinesas que desembarcam em solo brasileiro para investir diretamente em negócios variados.

O advogado Jun Zhang, do escritório Demarest e da Junde Consultoria, em São Paulo, estima que existam hoje no país cerca de 100 empresas chinesas de portes variados. Ele afirma que há muito interesse em aumentar esse número. A Xiaomi, maior marca de smartphones e tablets da China, por exemplo, anunciou que entrará no mercado brasileiro ainda neste ano. A marca é conhecida pelos smartphones de baixo custo que fazem
grande sucesso na China.

Na região de Campinas, no interior paulista, estão instaladas muitas dessas empresas. Em 2013, a cidade recebeu um investimento de 100 milhões de reais da fabricante de computadores Lenovo, que implantou ali um Centro de Produto e Desenvolvimento. Campinas, que já abriga um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Huawei, fabricante de equipamentos para telecomunicações, recebeu também investimentos da empresa de ônibus elétricos BYD, que está construindo ali sua fábrica na América Latina.

Com 180 mil funcionários em 11 unidades produtivas na China e em outros países, entre os quais EUA, Japão, Coreia do Sul, Índia e Taiwan, a BYD acaba de anunciar que também pretende produzir em Campinas placas de geração de energia solar. O investimento será de 150 milhões de reais que, somados aos 200 milhões de reais da fábrica de ônibus, totalizam 350 milhões e centenas de empregos para a cidade.

O prefeito de Campinas, Jonas Donizette, comemora a boa notícia: “Trata-se de um passo rumo à sustentabilidade, e é muito bom que Campinas faça parte dessa proposta”, diz. “Mantemos um bom relacionamento com empreendedores chineses.” Diante da disposição dos chineses em investir, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) montou, há um ano, um escritório em Xangai com a missão de buscar investidores, explicar a eles quais são as oportunidades à frente e como funcionam os negócios no país. Por trás da onda dos investimentos diretos chineses em solo brasileiro não está apenas o interesse em desovar dólares excedentes, como visto anteriormente, mas também uma precaução.

No próximo ano, a Organização Mundial do Comércio (OMC) discutirá e arbitrará as taxações sobre produtos chineses, retaliando aqueles cujos preços sejam considerados prejudiciais à economia de outros países. Assim, em face das possíveis restrições às suas exportações, os chineses estão tratando de garantir o abastecimento de seus mercados com a instalação de unidades de produção no local de consumo.

“No longo prazo, a China vai continuar investindo no Brasil, e de forma crescente”, diz Rodrigo Zeidar, professor de Economia e Finanças da Fundação Dom Cabral e da New York University em Xangai. Em outras ocasiões, os chineses chegaram a anunciar investimentos vultosos no Brasil, mas boa parte deles não se concretizou. Houve uma onda assim em 2007. Um estudo encomendado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), divulgado no início de 2013, demonstrou que dos 60 projetos de investimentos chineses anunciados para o Brasil, acima de 50 milhões de dólares, para serem realizados entre 2007 e junho de 2012, somente 39 estavam em execução. Desta vez espera-se que as coisas sejam diferentes.

Primeiro, porque o Brasil precisa dos recursos. Renato Baumann, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), enumera algumas mudanças que facilitariam o ingresso de investimentos diretos no país. “Deverá haver ajuste de tarifas, redução de barreiras, simplificação da burocracia no Brasil, tudo para que esta ótima notícia potencial se concretize”, diz ele. Depois, porque, como vimos, a China tem diversas razões, tanto de política interna quanto externa, para estar ansiosa por expandir seus negócios.

Na outra mão, empresas brasileiras atravessam o oceano em busca de oportunidades de se instalar em território chinês. Tome-se o caso da BRF, a empresa que resultou da fusão entre Perdigão e Sadia e que há muitos anos exporta para a China. A BRF prepara-se para implantar sua primeira fábrica no país, em Xangai. Isso ocorre porque, como se sabe, o Brasil vende um enorme volume de commodities para que os chineses industrializem e transformem em seu território.

As empresas brasileiras querem mudar esse cenário e transformar seus produtos em território chinês, para ganhar valor agregado. Também a WEG, presente na China desde 2004, planeja forte ex
pansão de sua operação, com expectativa de aumentar sua receita em cinco vezes nos próximos sete anos. A estimativa é de que haja 80 empresas brasileiras instaladas em território chinês. Dessas, somente oito delas possuam unidades de produção.

Comparado com outros países, o número de empresas brasileiras presentes na China é relativamente baixo. A diversidade dos setores de atuação que elas ocupam, entretanto, é um ponto de destaque: há companhias em 34 diferentes segmentos. No conjunto mais amplo, foram identificadas empresas de três naturezas: prestadoras de serviços (escritórios de advocacia, consultorias de negócios, tradings e bancos); empresas produtoras de manufaturas (como a Embraer, a Embraco e a WEG); e empresas intensivas no uso de recursos naturais (transformadoras de recursos naturais, como a BRF, a Marfrig, a Petrobras e a Vale).

Um estudo feito pelo Conselho Empresarial Brasil–China e pela Apex-Brasil a respeito das oportunidades de comércio e investimento na China para setores selecionados, publicado em 2015, conclui que os investimentos brasileiros no país se mantiveram estagnados nos últimos anos, enquanto as empresas chinesas se aproximaram do Brasil, expandindo seus investimentos desde 2010.

Isso se justifica, primeiramente, pela dificuldade das empresas brasileiras de servir o mercado doméstico chinês, em contraposição à atratividade e maior abertura do mercado brasileiro. Na China, diferentemente do Brasil, as normas que regem a economia e a atividade industrial são municipais. Para os brasileiros, é uma batalha se adequar a um sistema assim tão diverso.

O anúncio de investimentos no Brasil feito em maio último segue na esteira da concretização do plano da China de elevar os investimentos na América Latina para 250 bilhões de dólares na próxima década. A promessa foi feita pelo presidente chinês, Xi Jiping, em janeiro, aos chefes de Estado e governo dos países-membros da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

O Brasil tem importante peso específico nessa área, mas há quem tema que perca poder político e estratégico com o fortalecimento da China no Mercosul e, de forma mais ampla, na América Latina. Um dos temores, a partir da observação do comportamento dos chineses em territórios africanos, é de que venha a se repetir no Brasil o que ocorreu lá – a importação de trabalhadores chineses para trabalhar nas grandes obras de infraestrutura, sem consideração pela legislação trabalhista local, entre outros problemas.

Um exemplo notório é Angola, a ex-colônia portuguesa na África onde diversas empresas brasileiras conseguiram se estabelecer nas últimas décadas.Os chineses começaram a desembarcar naquele país cerca de dez anos atrás. Ofereceram crédito barato aos angolanos em troca de petróleo e construíram obras de in
fraestrutura a custo praticamente zero, com trabalhadores, máquinas e material provenientes da China.

Um caso que se tornou emblemático foi o de um hospital construído e equipado todo com instruções e sinaliza
ção em mandarim. Permaneceu dois anos fechado, até que os chineses enviassem uma equipe para treinar os profissionais angolanos que tocariam o hospital. Mas também há quem ache mais difícil acontecer algo parecido por aqui. “Isso, de fato, ocorreu, mas o Brasil não é Angola”, diz Baumann, do Ipea.

“É um país industrializado e com instituições bem estabelecidas.” A China, necessitada de aplicar seus dólares e sedenta de alimentos e matérias-primas, evidentemente deseja ganhar influência política e estratégica no Brasil e na América Latina – e este é um ponto que terá de ser negociado. No momento, o governo brasileiro está sem recursos para investir – e essa dinheirama está sendo oferecida por um país que pertence a um mesmo bloco econômico.

Atualmente, entre os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), somente China e Índia concentram três quartos dos investimentos diretos dos países do bloco. Isso significa que a China está investindo pesado na Índia. Este quadro deve mudar. Com o acordo com o Brasil, novas empresas chinesas deverão se instalar no país.

E dólares chineses que antes iam para a Índia deverão ser carreados para o mercado brasileiro. Autor do livro Brics e o Futuro da Ordem Global, Oliver Stuenkel, professor adjunto de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas (FGV) disse, em entrevista ao jornal espanhol El País, que o bloco dos Brics vive um dos momentos de maior dinamismo político, apesar da desaceleração econômica.

Ele acredita que, mesmo com um patamar de crescimento mais baixo do que vinha apresentando na última década, a China se manterá como a maior parceira comercial do Brasil e continuará a ser protagonista do grupo que, em breve, verá concretizada uma de suas maiores conquistas: o início da operação do banco dos Brics, instalado em Xangai, que deverá fortalecer a colaboração entre os países associados.


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