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08/07/2015

Uma fatia maior, por favor?

Produtores brasileiros tentam se modernizar para competir no mercado global de leite, queijo e derivados

Suzana Camargo
Os avós de Cícero, Paulo e Carlos Hegg nasceram na Suíça, o país dos queijos. Mas a família só começou a trabalhar com laticínios em 1980, quando dois dos irmãos suíço-brasileiros — Cícero e Carlos — compraram uma pequena fábrica na cidade de Tiros, no Triângulo Mineiro.

Nascia, então, a Tirolez, nome que homenageia o lugar onde o negócio se iniciou (Paulo, um especialista em comércio exterior, se juntaria ao empreendimento mais tarde, na hora de partir para a internacionalização).

“Nós nos propusemos a fazer um queijo bom, de uma qualidade que fosse reconhecida no exterior”, conta Cícero. “Sempre sonhamos com a exportação.” Passados 35 anos da fundação, o sonho está sendo alcançado: os produtos da Tirolez são vendidos para 11 países.

Os africanos Angola e Gana absorvem quase a metade do volume exportado, seguidos, entre os maiores compradores, por Chile, Japão, Líbano e Venezuela. Mas essa
vocação para buscar mercados estrangeiros não é a regra na indústria brasileira do leite e seus derivados. Ao contrário, ainda é um traço de exceção.

O Brasil produziu 34 milhões de toneladas de leite em 2013, atrás apenas da China, da Índia e dos Estados Unidos no mundo. Mas o consumo dentro do país absorve quase tudo (e exige importações para complementar a demanda interna).

De outra parte, o setor leiteiro ainda tem muito o que caminhar para alcançar a desenvoltura internacional exibida por outros vizinhos de fazendas e campos. Produtores de leite e os laticínios são uma espécie de primos pobres do rico agronegócio brasileiro.

Enquanto outros segmentos — como o de grãos ou de carnes — orgulham-se de trabalhar com tecnologia de ponta e competir nos mercados globais em pé de igualdade com países de tradição no negócio, a cadeia do leite no Brasil, com raras exceções, sofre com o atraso crônico em suas práticas e tecnologias de produção.

O resultado é uma produtividade exageradamente baixa, que causa, por sua vez, uma extrema timidez exportadora.

Os números contam essa história: segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), fazendeiros norte-americanos conseguem ordenhar até 33 quilos de leite por vaca diariamente, enquanto os alemães chegam a 24 kg/vaca; nas fazendas brasileiras, a produtividade média é de apenas 5 quilos de leite/dia por animal.

Na Holanda, cada vaca produz 8 mil quilos de leite por ano, enquanto o Brasil não alcança um quarto disso: fica em 1,8 mil kg/ano. Em 2014, apenas 1% da produção de leite foi exportada. Ou seja, no quarto país que produz mais leite no mundo, com um rebanho de 23 milhões de vacas leiteiras, as exportações da cadeia do produto contribuíram, em 2014, com mirrados 350 milhões de dólares para a balança comercial (a Holanda, com 1,6 milhões de vacas leiteiras, exporta 8 bilhões de dólares por ano em leite e laticínios).

É certo que a comparação entre os dois países precisa levar em conta a diferença de tamanho dos respectivos mercados internos. Ainda assim, fica evidente que um abismo separa as condições dos produtores europeus das dos brasileiros.

Entre os males que travam o avanço da indústria leiteira no Brasil e impedem que se torne competitiva na exportação, alguns são muito básicos: a incidência de doenças no rebanho, como a brucelose e tuberculose, por exemplo.

Outros replicam gargalos de competitividade comuns a boa parte da indústria nacional, como a formação insuficiente da mão de obra e a falta de instalações modernas e automatizadas na maior parte das fazendas de produção leiteira.

O engenheiro agrônomo e consultor Cesar de Castro Alves, da consultoria MB Agro, dá um exemplo desse atraso: só de 20 anos para cá se generalizou no Brasil a coleta do leite em tanques de resfriamento para que não se estrague de um dia para o outro, como acontecia nos antigos latões.

“É um avanço importante”, diz ele; mas é algo que vem sendo feito há quase 100 anos na Europa. Para fazer o setor deslanchar, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento lançou, no primeiro semestre deste ano, o Projeto da Melhoria da Competitividade no Setor Lácteo Brasileiro, que reúne medidas diversas de política agrícola e regulação e iniciativas para melhorar a sanidade e a qualidade do leite e dos laticínios brasileiros.

O projeto pretende, também, reforçar a assistência técnica e gerencial prestada aos pequenos proprietários do rebanho leiteiro, o elo inicial — e talvez o mais fraco, em termos econômicos — da cadeia produtiva. “A maioria dos produtores tem menos de 30 vacas maltratadas”, explica o consultor Castro Alves.

“São descapitalizados, os padrões de higiene são precários, e a maior parte nem sequer sabe qual o seu custo de produção.” São produtores como esses que fornecem boa parte do leite in natura à indústria para o beneficiamento. A meta do programa governamental é melhorar os conhecimentos técnicos dessa população por meio de educação continuada, de forma a estimular sua ascensão social das classes D e E para a classe C.

Caio Rocha, executivo da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e Cooperativismo do MAPA, dá números à iniciativa: “Nos próximos quatro anos, vamos capacitar 80 mil profissionais de todo o país”, promete. O projeto também prevê incentivos à exportação de produtos lácteos, ainda que esse não seja seu foco principal. “Vamos montar uma estrutura de comércio exterior”, diz Rocha.

O objetivo imediato é fazer com que as exportações tripliquem proporcionalmente em quatro anos: ou seja, o Brasil deixaria de exportar apenas aquele 1% de sua produção leiteira para chegar a 3% até 2019. A meta pode parecer pouco ambiciosa, mas a ideia é que seja só o começo. Nos planos do governo, o país deve tentar abocanhar uma fatia do crescimento global do consumo de lácteos: em 2013, a demanda mundial por leite, queijos, iogurtes e outros derivados era de 747 milhões de toneladas, de acordo com a FAO; já para 2025, estima-se que seja necessário 1,2 bilhão de toneladas para abastecer a fome dos habitantes dos cinco continentes (hoje, o leite em pó integral representa 60% das exportações brasileiras de lácteos, seguido pelo leite condensado, o creme de leite e a manteiga).

De fato, o momento é propício para um impulso na internacionalização dos produtos lácteos brasilei
ros. Os gastos com a importação de leite e derivados para complementar o que é produzido no país vêm caindo e, pela primeira vez em décadas, há a perspectiva de que a produção de leite e derivados no Brasil ultrapasse a demanda interna — situação em que exportar, mais do que uma oportunidade, será um imperativo.

Esses gastos ficavam, na média, em torno de 600 milhões de dólares anuais até 2013; em 2014, caíram
para 448 milhões, e a previsão é que se reduzam a 138 milhões neste ano. “Estamos prestes a reverter a situação”, afirma Ricardo Cotta, diretor de relações institucionais da Itambé, a empresa mineira que é a maior exportadora brasileira de laticínios. “Chegamos a um ponto de equilíbrio, um momento único na história.” É hora, portanto, de criar as condições para ganhar mercados lá fora. Mas o caminho a ser trilhado é longo.

O que é preciso fazer para facilitar a viagem, além de melhorar as condições e a tecnologia de produção no país? Um dos primeiros passos é diversificar e ampliar os mercados de exportação. Hoje, o maior importador de leite e laticínios do Brasil é a Venezuela — no ano passado, 55% das vendas brasileiras foram para lá.

Mas trata-se de um país em recessão e às voltas com uma grave crise política, que gera incertezas quanto ao futuro próximo. “As vendas são pontuais e gota a gota”, diz Cotta, da Itambé, que tem no vizi
nho bolivariano seu maior cliente externo. “É um negócio arriscado e totalmente diferenciado em razão da situação que o país vive no momento.”

A Itambé é, certamente, a mais experiente das exportadoras brasileiras do setor, tanto em tempo de trajetória como em volume comercializado. Já na década de 1970, a fabricante mineira negociava internacionalmente produtos como manteiga e leite em pó.

No ano passado, exportou 25 mil toneladas de lácteos, contabilizando 120 milhões de dólares — ou seja, 35% de tudo o que o setor vendeu para fora em leite e derivados. Todas as cinco unidades fabris da Itambé são habilitadas para exportação e 10% do que sai delas tem hoje como destino o mercado externo — o carro-chefe é o leite em pó. Já a Tirolez foi competir num nicho que nem sequer aparece nas estatísticas das exportações de laticínios nacionais: o dos queijos.

A empresa dos irmãos Hegg também vem investindo para ampliar a participação de seus produtos nos mercados externos: neste momento, está em negociação final com um grande distribuidor norte-americano cuja identidade prefere não revelar. “Até o fim do ano, será feito um teste com nossos queijos em um grupo de lojas nos Estados Unidos”, adianta Cícero.

A entrada no varejo americano pode ser o salto para concretizar uma meta desafiadora da Tirolez: passar a exportar 10% de sua produção – a empresa já chegou a exportar 5% do que fabricava, mas o percentual gira, hoje, em torno de 2%. O segmento queijeiro do mercado mundial de lácteos é dominado pelos respeitadíssimos e seculares produtores europeus.

Alemanha, França, Holanda e Itália encabeçam o ranking dos top players (juntas, têm 50% das exportações globais) e conquistam o mundo com suas especialidades de alto padrão (e altos preços). Nesses países, o queijo é alimento de primeiro plano e a produção queijeira é executada em grande escala, com alta expertise e tecnologia avançada. Nas últimas décadas, os europeus foram surpre
endidos por um novo competidor, os Estados Unidos.

Nessa briga de cachorros grandes, os irmãos Hegg não se sentem intimidados. “Sempre haverá alguém que comerá um queijo nosso, vai gostar e querer importar”, acredita Cícero. Ele aponta até uma vantagem competitiva do produto brasileiro: como no Brasil grande parte do rebanho é criada no pasto, o queijo fabricado aqui tem sabor distinto daquele feito com leite produzido por animais confinados, o que o diferencia, para melhor, na comparação com alguns de seus competidores.

A companhia possui as certificações sanitárias e alfandegárias para exportar desde 1993. A primeira remessa ao exterior dos queijos Tirolez aconteceu seis anos mais tarde, para o outro lado do mundo — o Japão. “Fomos procurados por uma empresa que percebeu a demanda dos decasséguis” (trabalhadores brasileiros descendentes de imigrantes japoneses que foram buscar emprego no país de seus antepassados nos anos 1980 e 1990), relembra o diretor da empresa.

A internacionalização da Tirolez, portanto, começou matando a saudade que nipo-brasileiros residentes no Japão tinham dos queijos prato, muçarela, provolone e do requeijão que eles estavam habituados a consumir no Brasil. Há, também, novatos partindo agora para testar o mercado externo.

O catarinense Maikel William Grasel, outro produtor de queijos descendente de europeus, enxerga uma janela de oportunidade para internacionalizar a marca Lac Lélo, da Laticínios São João. A empresa beneficia a produção de 350 famílias fornecedoras de leite na região oeste de Santa Catarina. Seus produtos têm forte presença no Sul do país.

Agora, Grasel quer seduzir o paladar de chilenos, russos e venezuelanos. “A capacidade de produzir mais e melhor despertou a possibilidade de buscar mercados mais rentáveis mundo afora”, ele afirma. Por cautela, a Lac Lélo escolheu investir somente em três países na primeira fase de sua internacionalização. “Como é um processo novo para nós, todas as etapas são avaliadas e as decisões tomadas com a maior se
gurança possível”, diz.

Para competir melhor, a Lac Lélo modernizou seus processos em 2014, transformando a linha semiautomática em totalmente automatizada, o que garantiu maior padronização do produto final e ampliação da capacidade de produção. Dos 50 produtos que o fabricante tem no portfólio, serão exportados somente os queijos muçarela e prato, por motivos de logística e limitações de shelf life, ou seja, o tempo em que podem perma
necer em perfeito estado de conservação nas prateleiras.

Os primeiros embarques estão previstos para agosto e setembro. “Se chegarmos a exportar 200 toneladas de queijos mensalmente, será um grande avanço para uma indústria de porte médio”, reconhece Grasel. Ele diz que é questão de tempo antes que outras empresas de lácteos brasileiras passem a explorar os mercados lá fora. Portanto, sair na frente pode ser uma vantagem. “Quanto antes criarmos essa cultura, maiores nossas chances de sucesso”, acredita.

O pico das exportações brasileiras de lácteos, até hoje, aconteceu entre 2007 e 2009. O preço internacional do leite em pó bateu, então, um recorde: a tonelada, vendida, na média, por cerca de 3,5 mil dólares, chegou a ser comercializada a 5 mil dólares. Mas a crise financeira global pós-2008 e a valorização do real no período terminaram por inibir as já tímidas exportações brasileiras. As perspectivas futuras são melhores, acredita Ricardo Cotta, da Itambé.

O valor do leite em pó deve voltar a subir e haverá um crescimento da demanda asiática (hoje atendida, em parte, pela Nova Zelândia, um pequeno país que exporta 95% do que produz). O grande ímã é o voraz mercado chinês de alimentos, turbinado por uma classe média em expansão e pela estratégia governamental de impulsionar o consumo doméstico. “A sede chinesa pelo leite importado é tão grande que, a longo prazo, provavelmente, a Nova Zelândia não dará conta de sustentar a demanda”, prevê Cotta.

“Temos a expectativa de vender para a China num futuro próximo; é um mercado que olhamos com carinho especial.” Além dos chineses, o executivo destaca a própria América Latina, a África e o Oriente Médio como mercados interessantes. Os dois últimos, juntos, importam 3 milhões de toneladas de laticínios anualmente.

Segundo o US Dairy Export Council, entidade americana que avalia o setor lácteo, países da região, como a Argélia, o Egito e o Marrocos, têm capacidade limitada de produção, em razão do solo pouco fértil. Em contrapartida, a população – na casa dos 160 milhões de habitantes – está cada vez mais ávida por consumir iogurtes e queijos.

A oportunidade de entrar nesses e em outros mercados ainda em crescimento, de uma parte, e a necessidade urgente de qualificar o setor lácteo brasileiro, de outra, são fatores que se reforçam um ao outro. A internacionalização, por si só, é um estímulo à modernização das cadeias produtivas, como atesta quem já deu os primeiros passos nessa direção. Cícero, da Tirolez, é um deles: “Entendemos que a internacionalização traz para a empresa demandas na qualidade e nos controles que ajudam a nos nivelar com o que existe de melhor no mundo”, diz.

O calouro Grasel está de acordo: “Exportar exige um nível de profissionalismo maior de toda a cadeia, beneficiando todo o setor”, afirma. Ganhar novos mercados lá fora, enfim, pode ser um antídoto contra o risco de repetir um ciclo perverso de desqualificação dos produtores, provocado pela superprodução e queda dos preços. Castro Alves, da MB Agro, acredita que o programa de modernização do setor leiteiro está no caminho certo. Mas faz um alerta: o aumento em produtividade precisa ser acompanhado da abertura de mercados e da elevação do nível dos produtos.

“O pior cenário seria estimular produtores ineficientes, expandir o rebanho e continuar produzindo pouco leite por vaca, num padrão baixo”, ele diz. Essa seria uma receita para provocar excesso de produção e queda dos preços. “Os produtores, nesse caso, voltarão a matar as vacas para sobreviver”, arremata o consultor. Uma hecatombe que os holandeses, provavelmente, não conseguem nem imaginar.



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