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08/07/2015

Passagem para a India

O Brasil e o "I" dos BRICS ensaiam uma parceria para explorar o potencial de negócios entre os dois países

Dario Palhares
Passados mais de 500 anos da chegada da esquadra do navegador lusitano Vasco da Gama ao porto de Calicute, no Oceano Índico, os brasileiros começam a explorar seu próprio caminho para a Índia. Desde o início do século, algumas grandes corporações nativas, casos de Marcopolo, WEG e Stefanini, realizaram investimentos diretos na nação asiática (veja reportagem na pág. 42), mas é o comércio que está em alta.

O impulso veio do Acordo de Preferências Tarifárias Fixas (APTF) firmado entre o Mercosul e a Índia, em vigência desde junho de 2009, que garantiu condições mais favoráveis às trocas comerciais de cerca de 900 itens entre seus signatários.

Desde então, os negócios decolaram. Para se ter uma ideia, enquanto as exportações brasileiras fecharam o ano passado com uma queda de quase 7%, as vendas para a Índia tiveram um aumento de 52,71%. Bateram em 4,78 bilhões de dólares, mais de quatro vezes o que o país vendeu para os indianos em 2008. No outro lado do balcão, os negócios também vêm ganhando volume. As importações brasileiras de produtos indianos saltaram de 3,56 bilhões para 6,33 bilhões de dólares em igual período.

O resultado disso é que o “I” do Brics ascendeu de forma meteórica à oitava posição entre os maiores compradores e fornecedores do “B” do mesmo grupo de nações emergentes. E não deve parar por aí. “A expectativa é de que, longe de perder o fôlego, as exportações para a Índia sigam em alta”, comenta Ana Paula Repezza, gerente de Estratégia de Mercados da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

“As perspectivas são excelentes, por conta do acordo tarifário, da aproximação dos dois países em fóruns internacionais, caso do Brics, do forte crescimento econômico e do sucesso das políticas sociais indianas, que permitiram a ascensão socioeconômica, nos últimos dez anos, de algo em torno de 170 milhões de cidadãos que estavam abaixo da linha da pobreza.”

Otimistas, tais previsões são referendadas pelo HSBC. De acordo com um levantamento do banco britânico, o Global Connections, as vendas do Brasil para a Índia aumentarão, em média, 5% ao ano até 2020, taxa que deverá dobrar na década seguinte.

Se os fatos corresponderem às estimativas, a Índia assumirá o quarto posto entre os importadores de produtos brasileiros em 2030, atrás apenas de China, Estados Unidos e Argentina, pela ordem. De quebra, se tornará a terceira principal provedora do Brasil, superada por China e Estados Unidos, já que, ainda segundo o HSBC, seus despachos para o parceiro sul-americano apresentarão crescimento médio de 10% ao ano entre 2020 e 2030.

“A Índia será parceira estratégica do Brasil em pouco tempo.
Já no próximo ano, a corrente de comércio deverá somar 20 bilhões de dólares, cinco vezes mais do que em 2008 e o dobro de 2014”, aposta Élson de Barros Gomes Júnior, cônsul honorário da Índia em Belo Horizonte e mentor da Câmara de Comércio Índia Brasil (CCIB), que desde sua criação, em 2003, já promoveu cerca de dez missões empresariais para a Ásia.

O comércio entre os dois países ainda é fortemente concentrado em commodities, sobretudo petróleo e derivados, mas os brasileiros estão empenhados em tornar mais nobre sua pauta de entregas. Parte desse esforço tem sido coordenado pela Apex-Brasil.

A agência governamental ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) elegeu cerca de dez setores com maior potencial de penetração naquele mercado e vem dando apoio à participação da turma em missões empresariais, rodadas de negócios, feiras e exposições.

A lista inclui, entre outros, indústrias de processamento de frangos e suínos, implementos agrícolas, componentes de calçados, itens para animais de estimação, equipamentos de geração e distribuição de energia elétrica e aparelhos médicos, hospitalares e odontológicos, além de franquias voltadas para a alimentação, produtores de couros e de material genético bovino.

“A ideia é agregar valor às nossas exportações a partir de oportunidades geradas pelas grandes transformações em curso na sociedade indiana”, observa Ana Paula. A mais significativa dessas mudanças é uma melhoria considerável na renda e nas condições de vida da população.Tal e qual o Brasil – cuja classe média ganhou o reforço de 40 milhões de cidadãos nos últimos 15 anos, por conta dos programas sociais do governo federal –, a Índia também tem do que se orgulhar nessa seara. De acordo com o Banco Mundial, a população abaixo da linha da pobreza encolheu de 45,3% para 21,9%, entre 1993 e 2013, e a expectativa de vida aumentou de 60 para 66 anos, desde 1995.

Com mais rúpias no bolso, os indianos passaram a demandar mais alimentos e melhores serviços de saúde. É aí que entram a Apex-Brasil e os setores eleitos para atuar como pontas de lança naquele mercado. “Nossos fabricantes de equipamentos médicos e odontológicos se especializaram no desenvolvimento de modelos portáteis, voltados para áreas remotas do país, que também são ideais para a Índia.

De quebra, seus produtos têm preços mais em conta do que os similares de Estados Unidos, Japão e Alemanha”, ilustra a gerente da agência. Nome tradicional do segmento, a Gnatus, fabricante de equipamentos médicos e odontológicos de Ribeirão Preto (SP), descobriu o caminho para a Índia há tempos.

Seus embarques para os portos de Chennai, Mumbai e Calcutá, entre outros, tiveram início há 30 anos, e hoje respondem por 7% dos negócios no exterior, participação que deverá ser mantida neste ano. Efetuadas por meio de um distribuidor, as vendas contemplam consultórios odontológicos, autoclaves, bombas a vácuo, equipamentos de raios X e outros.

“Nossa presença no mercado indiano evoluiu graças ao nosso parceiro local, que é muito forte”, explica Antonio Carlos de Caldas, gerente regional de vendas internacional. “O grande desafio é oferecer produtos com uma boa relação custo/benefício, já que enfrentamos a concorrência de indústrias locais e também da China.”

Uma antiga rival, a conterrânea Dabi Atlante, tornou-se parceira da Gnatus no início do ano, quando a dupla anunciou a sua fusão. Cada uma delas, no entanto, permanece atuando com marcas próprias no
front externo, inclusive na Índia, para a qual a Dabi Atlante exporta há 15 anos. A empresa paulista conta, naquele país, com um representante que dispõe de uma boa estrutura comercial. O parceiro contabiliza uma equipe com 60 funcionários, incluindo três gerentes regionais voltados para os clientes das imediações e de outras duas grandes cidades, Mumbai e a capital Nova Délhi.

“O acordo comercial entre o Mercosul e a Índia nos ajudou bastante, pois reduziu trâmites burocráticos e custos operacionais. Conseguimos aumentar o volume de vendas e, também, o leque de produtos ofertados”, conta o gerente de comércio exterior Marco Aurélio de Souza.

“Se antes todos os embarques eram por via marítima, hoje um grande volume de nossas exportações para a Índia segue por aviões, por conta da rapidez e da facilidade para o desembaraço das mercadorias nos postos aduaneiros do país.”

Os despachos para a costa do Índico ainda são reduzidos. Somaram 200 mil dólares em 2014 e devem alcançar a marca de 500 mil dólares neste ano. Mas a perspectiva é de crescimento, já que a Índia integra um grupo de mercados estratégicos que merecerão especial atenção da Dabi Atlante entre este ano e o próximo.

“Nosso maior desafio é atingir cidades mais distantes das grandes metrópoles do país, onde já estamos presentes”, revela Souza. “Já definimos um plano de ação com o nosso representante local.”

Mais comedidos, os fabricantes de bens de capital só tendem a incluir o “I” do Brics em seus roteiros de negócios na segunda metade da década. Além dos implementos agrícolas, que estão na pauta da Apex-Brasil, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) vê grande potencial de vendas para indústrias de geradores elétricos, maquinário pesado para química e petroquímica, equipamentos de transmissão mecânica e outros voltados à produção de papel e celulose.

Como em qualquer mercado, qualidade e preços competitivos fazem a diferença, mas, no caso da Índia, só isso não basta. “Eles prezam e cultivam muito os relacionamentos. Tive contatos com alguns empresários e executivos indianos há 15 anos e até hoje eles me procuram vez ou outra”, explica Klaus Curt Müller, diretor de comércio exterior da Abimaq.

“Para dar-lhes a atenção devida, precisaremos de muitos braços e dedicação.” A manufatura nacional de geradores e aparelhos de transmissão e distribuição de energia elétrica pode até ter muita lição de casa a fazer para garantir um lugar ao sol no mercado indiano.

Em compensação, uma empresa brasileira ligada a esse segmento da indústria já começa a conquistar espaço por lá. É a paulista Treetech, referência global em sistemas de monitoramento remoto de redes de energia, que garantem a detecção, em tempo real, de falhas e problemas, permitindo a pronta intervenção de equipes de manutenção. Presente em 39 países, a sua tecnologia – que impediu um blecaute no sul da Califórnia, em 2004 –, desembarcou de forma tímida na ex-colônia britânica há cinco anos, pelas mãos de um escritório local de projetos de engenharia.

“A semente germinou em 2013, quando fomos procurados por grandes fabricantes indianos de equipamentos de alta-tensão, caso da Crompton Greaves, que tem forte atuação internacional”, diz o executivo de negócios Gilberto Amorim Moura. As transações com aquela praça não tardaram a mudar de patamar. Saltaram de um valor equivalente a 400 mil reais, no negócio inaugural, em 2010, para a casa de 4,5 milhões de reais, na última temporada.

Até maio deste ano, as novas encomendas somavam 1,5 milhão de reais, e prometem se multiplicar a médio prazo. “Até o fim da década, acreditamos que as exportações para a Índia alcançarão 15 milhões de reais por ano”, prevê Moura.

“Para alavancar os negócios, estamos prospectando representantes.” O método de monitoramento da Treetech foi desenvolvido sob medida para a realidade brasileira, mas atende inteiramente as necessidades indianas. Isso porque o parque de transformadores de potência da nação asiática é até mais velho que o do Brasil.

Como são máquinas caras, com preços entre 1 e 6 milhões dólares, pesadas e produzidas apenas sob encomenda, é muito mais vantajoso mantê-las sob constante vigilância. “A Índia pretende alongar a vida útil de seus transformadores.

Com o know-how que desenvolvemos aqui no Brasil, teremos condições de ajudá-la”, destaca o executivo. A mesma disposição norteia os passos da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). Com sede em Uberaba (MG), a entidade, que contabiliza nada menos que 21 mil sócios, começou a ser cortejada por
pecuaristas indianos em 2013.

De início, eram consultas e sondagens, aqui e acolá. No ano passado, três delegações visitaram o país com o intuito manifesto de adquirir material genético para o aprimoramento dos rebanhos na Ásia. Uma tremenda ironia, já que a subespécie zebuína surgiu na Índia e foi introduzida no Brasil no século 19. “Aqui, as raças zebuínas se adaptaram e evoluíram de tal forma, graças ao trabalho desenvolvido pela ABCZ em conjunto com os criadores, que hoje representam 80% dos 200 milhões de cabeças do gado bovino”, explica Icce Garbelini, gerente de relações internacionais da Associação.

“Já em seu berço original, as raças degeneraram, devido a cruzamentos sem critério. Restaram poucos núcleos de animais puros na Índia, mas, ao menos, há vontade para corrigir os erros cometidos.” Por enquanto, o interesse se restringe a esperma de raças leiteiras, casos da Gir e da Guzerá.

Mas não será surpresa se surgirem encomendas de material genético de animais de corte, como os Nelore, já que o consumo de carne bovina na Índia vem subindo fortemente, embora ainda seja considerado um sacrilégio pela maioria hindu.

“Em ambos os casos, a produtividade do gado brasileiro é bem superior à do indiano”, salienta Icce. Os primeiros botijões criogênicos seguiram por avião, no ano passado. As vendas para a Índia responderam por pouco mais de 1% das exportações brasileiras de material genético bovino de gado leiteiro no período, de 122,78 mil doses, segundo a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). A marca já foi superada neste ano, pois só entre fevereiro e março dois lotes, com 1.500 doses no total, foram despachados para o Oriente.

“O processo de abordagem ainda está no começo, mas estamos animados, pois o potencial do mercado indiano não é grande nem enorme, e sim gigantesco”, destaca a gerente da ABCZ. “Afinal, o país conta com o maior rebanho de zebuínos do mundo [300,6 milhões de cabeças] e, além de material genético, é forte candidato a comprador de todo o leque de produtos e serviços desenvolvidos pela cadeia pecuária brasileira, o que inclui maquinário, sementes de pastagens, centrais de inseminação, treinamento e capacitação de mão de obra.”

O empenho em recuperar um patrimônio nacional, como é o caso das raças zebuínas, dá uma pista do bom momento vivido pela Índia. A nação obteve avanços significativos na redução da desigualdade social, a economia vem crescendo de forma consistente, com média de 7,0% entre 2013 e o ano passado, e promete aumentar o ritmo até 2016, com taxas anuais de 7,5%, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI). Ainda em 2015, de acordo com o FMI, o PIB indiano deve atingir a marca de 2,30 trilhões de dólares, tomando do Brasil o sétimo posto no ranking mundial.

Nos próximos 35 anos, prevê o estudo “O mundo em 2050”, elaborado pela consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), ficarão para trás Japão, Alemanha, Reino Unido, França e até os Estados Unidos. Em meados do século, na avaliação da PwC, a economia da Índia (42 trilhões de dólares) só será superada pela chinesa, com uma cifra de 61 trilhões de dólares. O “milagre” indiano teve início na década de 1990. Desde então, o país cresce a taxas superiores a 6% ao ano – performance mantida até mesmo durante o período mais agudo da crise econômica internacional, entre 2007 e 2009, com médias anuais de 6,7%.

Ao longo do último quarto de século, a Índia tornou-se a maior provedora global de serviços globais de tecnologia da informação (TI), com exportações ao redor de 80 bilhões de dólares ao ano, e algumas de suas corporações saíram às compras no mercado internacional – caso do poderoso Tata Group, que arrematou a Land Rover e a Jaguar da Ford, em 2008, por 2 bilhões de dólares.

Além de potência econômica, de fato e de direito, a Índia agora inicia voos ainda mais altos – literalmente, diga-se. Em setembro do último ano, o primeiro-ministro Shri Narendra Modi come
morou a entrada na órbita de Marte da sonda espacial Mangalyaan.

“A Índia fez história hoje”, resumiu o político, no dia 25 daquele mês. De olho nesses indicadores e feitos, os Estados Unidos decidiram estreitar relações com aquela que é maior democracia do planeta. No fim de janeiro, o presidente Barack Obama, acompanhado por uma delegação de 250 empresários e executivos, visitou Nova Délhi e anunciou investimentos de seu governo no país da ordem de 4,1 bilhões.

O primeiro-ministro Modi, a quem os norte-americanos negaram um visto de entrada, há dez anos, celebrou os passos iniciais rumo à formação de uma aliança estratégica que promete incomodar os rivais e vizinhos chineses. “Vamos continuar a aprofundar a nossa colaboração em ciência, tecnologia, inovação, agricultura, saúde, educação e habilidades. Isso é fundamental para o futuro de nossos países; e também nos dará a oportunidade de ajudar outras nações”, discursou o líder indiano.

No plano econômico, o intercâmbio entre os dois países ganhou grande impulso nas últimas temporadas. Entre 2009 e o ano passado, a corrente de comércio saltou de 37,60 bilhões para 66,84 bilhões de dólares, com amplo superávit para os indianos, que mais do que duplicaram suas vendas no período – de 21,16 bilhões para 45,24 bilhões de dólares.

Um item chama a atenção na pauta de exportações do emergente da Ásia para os Estados Unidos: são os produtos farmacêuticos, que responderam, em 2013, por receitas de 4,5 bilhões de dólares, inferiores apenas às dos diamantes, com 9,2 bilhões. Os laboratórios da Índia, que vêm nadando de braçada mundo afora, já respondem por 40% dos genéricos vendidos em solo ianque.

Sua presença por lá se estende, inclusive, à produção. Só nesta década, foram adquiridas cinco indústrias locais – caso da DUSA, de Massachusetts, arrematada pela Sun Pharmaceutical, em 2012, por 230 milhões de dólares.

Tal apetite também contempla o Brasil, onde atuam cerca de 15 empresas indianas do setor. Em maio, o clube ganhou uma nova sócia – a Lupin, de Mumbai, que assumiu o controle da Medquímica, de Juiz de Fora (MG). “Internacionalização é um assunto muito sério para os indianos. Eis um bom exemplo a ser seguido pelos empresários brasileiros”, assinala o cônsul Élson de Barros Gomes Júnior.


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