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06/05/2015

Na rota da Ásia

A nova classe média urbana da China oferece ao agronegócio um mercado em acelerada expansão

Armando Mendes
Em recente evento promovido pelo Conselho Empresarial Brasil—China (CEBC) e pela ApexBrasil sobre as perspectivas de produtos brasileiros no imenso mercado asiático, um cidadão chinês na plateia fez jus a cinco minutos de estrelato com uma veemente intervenção em favor da comida brasileira. Entre debates sobre o custo Brasil, as dificuldades para entrar no mercado chinês, a imagem dos produtos brasileiros por lá e as diferenças de paladar, ele mandou ver em português com sotaque, mas claro: “Queremos muita carne bovina, muito suco natural; a questão não é gosto ou não gosto; gostamos muito!” O cardápio básico dos chineses é composto de 80% de verdura e 20% de carne, explicou o debatedor — carne suína, em geral. E fez uma queixa: “Suco natural e carne, na China, é luxo; sabemos que carne bovina é boa e suco natural é bom, mas o preço é muito alto e não tem como chegar a todo o mundo”. O que precisaria ser feito, então, para abrir o mercado chinês aos alimentos brasileiros? “Para esses dois produtos, é muito fácil; basta ter preço”, arrematou.

Para os produtores, exportadores e traders presentes, a afirmação do gosto dos chineses deve ter soado como uma injeção de estímulo na vontade de chegar à mesa do consumidor chinês — o tema principal das discussões travadas num hotel dos Jardins, em São Paulo. Sucessivos debatedores destacaram o potencial de negócios oferecido por seis tipos de alimentos — as carnes bovina, suína e de frango, o suco de laranja, o café e a soja (além de celulose e calçados). O conjunto de produtos foi objeto de um estudo feito pelo CEBC e pela ApexBrasil (Oportunidades de Comércio e Investimento na China para Setores Selecionados — 2015) e apresentado nos painéis do evento (leia mais na pág. 28). Em comum, esses produtos têm pelo menos um traço: o consumo de todos eles deve continuar a crescer na próxima década na China, impulsionado pela rápida industrialização e urbanização do país e pelo aumento da renda média dos chineses e chinesas.

Há uma crescente classe média urbana em formação no país mais populoso do mundo disposta a gastar em bens antes inacessíveis à maior parte dos chineses — entre eles, um cardápio melhor e mais diversificado. Esse processo, iniciado há algumas décadas, está sendo acelerado por uma diretriz do governo do presidente Xi Jinping, cujo mandato (de dez anos) teve início há pouco mais de dois anos: a de deslocar o “motor” do crescimento da economia chinesa dos investimentos em infraestrutura para o consumo das famílias. Nem mesmo o relativo esfriamento recente da economia chinesa — cujo crescimento anual caiu a 7% depois de uma série de índices na faixa dos dois dígitos, e pode ficar entre 6% e 6,5% no ano que vem — deverá frear a urbanização, apontam os estudos. Estima-se que 260 milhões de trabalhadores migrantes sejam incorporados à vida urbana durante o processo, número citado no trabalho do CEBC/ApexBrasil (outra conta estima em cerca de 500 milhões o número de chineses que deixaram o campo para viver nas cidades até 2002).

São essas centenas de milhões de novos urbanoides — gente que deixa de produzir o seu alimento no campo e passa a frequentar supermercados e restaurantes — que formam o mercado potencial em que os produtores brasileiros estão de olho. Os obstáculos são muitos — neste momento, por exemplo, o Brasil não pode exportar carne diretamente para a China continental por causa de um embargo imposto pelos chineses em 2012 por razões sanitárias (o embargo foi suspenso no ano passado, mas para as vendas recomeçarem, os dois países precisam chegar a um acordo sobre um certificado sanitário, ainda em negociação).

O JBS exporta 11,8% de sua produção de carnes para a China e vizinhos

As recompensas, de outro lado, são suculentas. A JBS — a multinacional de frigoríficos com origem em Goiás que é hoje a segunda maior empresa global de alimentos — tem na China e vizinhos asiáticos seu terceiro maior mercado de exportação de carnes de todos os tipos, atrás da América Latina (com 15,9%) e da África/Oriente Médio (com 12,3%). Dos mais de 16 bilhões de dólares exportados no ano passado pela JBS em carnes bovinas, de aves e suína, 11,8% foram para a China e países vizinhos, como o Vietnã. Esta conta consolidada inclui, do lado vendedor, não só as exportações do Brasil, mas também aquelas feitas por unidades da JBS em outros países, como a Austrália, o Uruguai e os Estados Unidos. Do lado comprador, são levadas em conta as vendas para Hong Kong, a ex-colônia britânica que é grande importadora de carnes brasileiras — a cidade voltou a pertencer à China, mas tem um regime próprio de administração e não acompanhou o embargo à carne bovina brasileira imposto pelas autoridades de Pequim.

Em prazo curto, entretanto, a região asiática, puxada pela demanda chinesa, está a caminho de se tornar o cliente global número 1 do frigorífico goiano — se as condições políticas e regulatórias permitirem. “Vai depender da abertura do mercado (chinês) para a carne bovina brasileira”, explica Jerry O’Callaghan, diretor de relações com investidores da JBS. Eliminada essa barreira, em três anos a China passará à frente nos mercados de exportação da empresa, ele prevê. “Na nossa visão (a abertura) vai impulsionar bastante os volumes.”

Para o CEBC e a ApexBrasil, a urbanização continuada da população chinesa significa que as exportações do agronegócio brasileiro para a China deverão continuar a crescer. Trata-se de uma curva que já vem de alguns anos. De 2009 para 2013, o valor dessas vendas subiu 154% — de 9 bilhões para 23 bilhões de dólares. A maior parcela veio da exportação de soja, que cresceu 43% em relação a 2012 (e alcançou mais de 16 bilhões de dólares). Os números confirmam o potencial do mercado chinês (e, por extensão, do asiático) para absorver mais alimentos brasileiros. “A grande questão não é se existe demanda, é como eu vou organizar minha oferta”, resume Marcos Jank, o diretor executivo global de assuntos corporativos da BRF, o conglomerado de carnes e alimentos processados formado pela fusão das marcas Perdigão e Sadia (e um dos participantes do encontro em São Paulo). “Em se tratando de alimentos, não tem como não estar na Ásia neste momento; é a região mais promissora.”

Jank mudou-se com a família para Cingapura, no começo do ano, com a missão de desenvolver negócios na Ásia e fazer a interlocução com os governos dos países da região. “Somos um grupo com forte presença em mais de 100 países na exportação, e neste momento queremos aprofundar as relações para fazer investimentos, parcerias, desenvolver joint ventures e outras operações”, diz ele. “Para isso, a gente tem de acompanhar o policy-making local, nos países.” Para ilustrar o volume do mercado ainda pouco explorado pelos produtores brasileiros, ele faz uma comparação: metade da população mundial — cerca de 3,5 bilhões de pessoas — vive no espaço geográfico compreendido entre a Índia, a China e o arquipélago da Indonésia, em 15 países que representam uma pequena fração da terra do planeta. “É uma imensa quantidade de gente numa região que tem poucos recursos naturais”, observa. “E 90% dos consumidores dessa região ainda têm acesso limitado ou nenhum acesso às carnes brasileiras.”

Comer carnes, em geral, não é um ponto forte dos hábitos alimentares na China e vizinhança, em particular a carne bovina, a mais cara. A proteína animal mais consumida na região é, de longe, a suína, seguida da carne de frango, mas, ainda assim, observa Jank, o consumo anual per capita de carnes no sul e sudeste asiáticos equivale a menos de um quinto do consumo brasileiro. O’Callaghan nota que, em 2013, os chineses consumiram, na média per capita, 3,4 quilos de carne bovina, um valor abaixo da média global (de 6,6 quilos) e muito abaixo dos números do Brasil (30 quilos) ou da recordista mundial, a Argentina (42 quilos), no mesmo ano.

São valores que tendem a crescer com a urbanização e o aumento da renda da população chinesa. Mas o que é necessário fazer para surfar nessa onda? É preciso conseguir as certificações sanitárias e os acordos comerciais indispensáveis para abrir os países aos produtos brasileiros — duas etapas que dependem de ação diplomática do governo. O terceiro degrau da “escadinha” de entrada nos mercados asiáticos é a promoção comercial e da imagem do produto brasileiro. Nessa etapa, produtores privados e governo precisam trabalhar em conjunto para tornar os alimentos made in Brazil mais conhecidos e certificar que são confiáveis do ponto de vista sanitário — algo fundamental num mercado como o chinês, cujas cadeias de produção de alimentos, em muitos casos, não se modernizaram na mesma velocidade das mudanças sociais e econômicas do país. Essa defasagem provocou crises em que produtores chineses ficaram sob suspeita de descumprir padrões sanitários e ameaçar a saúde dos clientes. “Isso abalou um pouco a imagem do produtor local para o consumidor que tem um discernimento maior, o que facilitou a abertura do mercado para a importação de produtos tidos como de melhor qualidade”, diz O’Callaghan, da JBS.

Austrália, Uruguai e Argentina são exemplos nesse aspecto; a carne bovina que exportam tem a imagem, no mercado chinês, de ser a mais saudável e segura — um resultado não só da qualidade em si, mas também de um forte trabalho de imagem realizado pelos produtores, segundo o estudo do CEBC/ApexBrasil. Em supermercados de alto padrão, a carne desses países é vendida com um selo de origem (e a preços mais altos). O Brasil tem uma imagem que varia de neutra a boa, diz O’Callaghan — o país é associado, na região, a grandes extensões de terras virgens, natureza e floresta. Ele conta que em Hong Kong, durante um surto de gripe aviária, alguns restaurantes colocaram na vitrine bandeiras verde-amarelas e cartazes proclamando que aqui servimos frango brasileiro. “Para se distanciar do problema, eles não hesitavam em publicar que seu produto era proveniente do Brasil.”

O desafio é tornar os produtos brasileiros mais conhecidos na Ásia

Para Jank, da BRF, existe aí uma abertura para que o país chegue aos mercados asiáticos não apenas como fonte de commodities alimentares — da soja às carnes congeladas —, mas como participante de cadeias de produção sofisticadas e capazes de acrescentar valor aos produtos exportados. “O maior ativo que a gente tem não é o frango ou o suíno; são nossas cadeias produtivas integradas, em que existe forte controle da qualidade e da sanidade do produto”, diz ele. “Isso é uma coisa que, de certa forma, ainda falta no mundo” — em particular, em países como a China e seus vizinhos, que buscam subir um estágio na trilha da segurança alimentar. Esta passa a ser vista não só como o fornecimento assegurado, a preços acessíveis, da comida necessária para a subsistência da população, mas também como a garantia qualitativa e sanitária desses alimentos, do produtor até o supermercado. “Nesses países, existe grande espaço para as empresas que dominam as cadeias produtivas das proteínas animais chegarem até o consumidor final”, acredita Jank.

Chegar ao consumidor asiático com marcas próprias, em lugar de entregar commodities num porto brasileiro, para que um navio as leve ao país importador; esse é o objetivo a ser perseguido, na opinião do diretor da BRF. Ele vai buscar um exemplo na própria empresa: a fábrica inaugurada pela BRF no ano passado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Lá, carnes congeladas e desossadas vindas do Brasil tornam-se cerca de 80 produtos diferentes para ser distribuídos nos países do Golfo Pérsico. “As carnes são reprocessadas como sanduíches, produtos marinados ou o shawarma, aquele churrasquinho típico da região”, explica Jank. “Tudo com a gramatura, o gosto, os condimentos usados localmente e seguindo os preceitos religiosos halal no preparo — a gente chega ao consumidor com produto feito localmente a partir de matéria-prima brasileira.”

Replicar esse modelo na Ásia não quer dizer, necessariamente, abrir uma fábrica própria, logo de saída, na China ou em outro país. Outras formas de chegar ao mercado estão sendo experimentadas — em meados de abril, por exemplo, a BRF Ásia anunciou uma joint venture com a Singapore Food Industries Pte. Ltd., de Cingapura, para oferecer alimentos processados e semiprocessados no mercado local e, futuramente, no Sudeste Asiático. A nova empresa vai se chamar SATS BRF Food, juntando no nome a multinacional brasileira e a controladora de sua parceira na joint venture — a SATS Ltd., a maior operadora de serviços para aeroportos e catering da região, que também faz distribuição de alimentos (a BRF já fornecia carnes para a SATS, cujo maior acionista é o fundo soberano de Cingapura, o Temasek). E na Indonésia, a BRF discute com uma empresa local outra joint venture para a distribuição de produtos de frango — a maioria muçulmana da população da Indonésia não consome carne de porco por restrição religiosa.

São caminhos variados para chegar ao mesmo objetivo de ganhar valor na cadeia produtiva. Jank observa: não faz mais sentido transportar soja de caminhão por 1,5 mil quilômetros, de Mato Grosso a um porto brasileiro, e embarcar essa soja num navio para alimentar aves e suínos do outro lado do mundo. A soja (e também o milho) vale menos de 500 dólares por tonelada; a carne de suínos e aves vale de 2 mil a 5 mil dólares a tonelada. “Só pelo fato de deixar de vender grãos e passar a vender a carne, já estou adicionando de quatro a dez vezes mais valor ao produto”, conclui. Os chineses e a balança comercial agradecem.

CAFÉ, LARANJA E SOJA

No império do chá, quais as chances de ganhar consumidores para o café? Crescentes, avalia quem segue o mercado. O hábito de tomar café ainda é quase exótico na China, restrito às grandes cidades e a consumidores de renda alta e estilo de vida ocidental. Mas esse estrato tem crescido com a urbanização do país e o surgimento de uma classe média cosmopolita de adultos jovens que frequentam cafeterias de redes internacionais.

A importação e o consumo de café também crescem — a China aumentou em cerca de 400% a importação de grãos entre 2003 e 2013, e a exportação do arábica brasileiro subiu 20% no ano passado. Mas não se comparam sequer a outros países da Ásia. O Japão, com uma fração da população chinesa, consome quase cinco vezes mais café do que a China, lembrou Javier Faus, um dos participantes do evento em que o CEBC e a ApexBrasil lançaram o estudo Oportunidades de Comércio e Investimento na China para Setores Selecionados — 2015.

Num mercado em formação, as oportunidades são grandes e as dificuldades quase prosaicas. Mais uma vez, foi um chinês da plateia quem levantou um dos empecilhos para incentivar o consumo do produto na China: o fato de que os chineses não sabem preparar o café caseiro. Por isso, o consumo doméstico é quase inexistente: café, lá, se toma na rua. “Nossa estratégia deve ser na linha da educação e do treinamento”, propõe Faus. Os chineses tomam, em média, apenas cinco xícaras de café por ano, ante 240 da média mundial, ele nota. O potencial, portanto, é imenso.

No caso dos dois outros produtos alimentares tratados no estudo da CEBC/ApexBrasil — a soja e o suco de laranja — não se trata mais de ganhar a posição de destaque. O Brasil já é o principal fornecedor desses dois produtos para a China (no caso da soja, divide o primeiro lugar com os Estados Unidos). Para o suco de laranja, o estudo propõe aos produtores brasileiros incentivar o consumo da versão mais concentrada do produto e reduzir o peso das versões menos concentradas e mais baratas — o néctar e o extrato — hoje dominantes no mercado chinês.

Já para a soja, as discussões durante o evento foram na mesma direção da proposta de Marcos Jank, da BRF: quase 80% da soja brasileira processada vira farelo, a fonte de proteína que alimenta suínos e frangos destinados ao abate. Em vez de exportar a soja em grãos por uma rota logística longa e ineficiente, seria melhor beneficiá-la e fornecê-la no Brasil para, depois, exportar as carnes, produtos de maior valor na cadeia produtiva.


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