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Investimento privado é crucial

Para o economista do Banco Mundial, o Brasil precisa de mudanças estruturais para poder participar das cadeias mundiais de valor

Nely Caixeta e Armando Mendes
Otaviano Canuto

O economista sergipano Otaviano Canuto é vice-presidente e chefe da Rede de Redução da Pobreza e Gerenciamento Econômico do Banco Mundial. Nascido em Aracaju, há 57 anos, lidera uma divisão com mais de 700 economistas e especialistas do setor público desde 2009. Para Canuto, que ocupava anteriormente uma vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Brasil conseguiu grandes sucessos com suas políticas econômicas recentes. “A combinação de crescimento razoável com redução acelerada da pobreza foi o que colocou o Brasil no centro das atenções no mundo”, diz. Mas, a seu ver, o governo pecou ao insistir nas mesmas receitas usadas para enfrentar a crise de 2008. Agora, diz ele, é preciso enfrentar os gargalos da competitividade e ampliar a taxa do investimento privado. Pai de quatro filhos, Canuto espairece tocando violão em seu tempo livre em Washington, onde vive há nove anos. Confira, abaixo, a entrevista que deu à PIB, pelo Skype, diretamente de seu escritório no Banco Mundial.


O desenvolvimento e a diversificação da indústria fariam supor a presença maior do Brasil nos mercados mundiais. O que está faltando? 


Acho que o Brasil vai depender, cada vez mais, de aumento de produtividade, atualização tecnológica e serviços. Especialmente os serviços que são insumos importantes na competitividade dos demais setores. O serviço de transporte é um caso óbvio. Um dos fatores de perda de competitividade do Brasil é o grau de fechamento de nosso setor de serviços. As regulações e barreiras à entrada são tais que inibem a presença de novos participantes. É fundamental para o país abrir a concorrência dos nossos serviços para que novos competidores entrem e contestem a posição dos que já estão estabelecidos.


O Brasil era uma das estrelas da nova realidade da economia mundial depois da crise de 2008. Mas, se o otimismo de até pouco tempo atrás parecia excessivo, o clima de pessimismo mais recente não lhe parece também exagerado?


Vocês têm razão. O ufanismo foi exagerado, na época. Agora, o fato é que estamos longe de ver um sinal claro de que as economias avançadas estão revertendo a tendência de baixo crescimento, que está arrastando também para baixo as economias emergentes. Em geral, a tendência negativa das economias avançadas predominou sobre as fontes autônomas de crescimento nas economias emergentes. Nessas circunstâncias, a qualidade da resposta de política econômica de países faz diferença. Por isso, mesmo com o cenário ruim nas economias avançadas, assistimos a diferentes ritmos de recuperação entre as economias emergentes. Na nossa região, países como Chile, Colômbia, México e Peru, a despeito das dificuldades, estão crescendo mais do que nós.


Onde os brasileiros erraram e onde os mexicanos, por exemplo, acertaram?


Brasil e México acertaram quando acionaram seus arsenais de medidas fiscais, monetárias e creditícias como resposta anticíclica aos choques externos de 2008 e 2009. Têm o mérito de terem construído espaço para tal mediante políticas macroeconômicas sólidas no período anterior. No México, no entanto, percebeu-se o caráter one shot dessa resposta, no sentido de que a passagem da crise global de um estado agudo para algo crônico tornou menos eficaz a repetição da dose anticíclica. Desde então, a agenda da discussão – e das políticas prometidas – voltou-se para reformas estruturais necessárias ao crescimento sustentado. No Brasil, por sua vez, o uso de políticas fiscais e semifiscais anticíclicas tem sido repetido, não conseguindo efeitos equivalentes na segunda rodada. A meu ver, os espíritos animais dos investidores privados só voltarão a acordar quando houver maior clareza quanto à agenda de longo prazo a ser perseguida pelo governo em um contexto global de recuperação lenta e cheia de riscos de recaídas.


Mas qual foi o grande mérito da política econômica brasileira recente?


O que dá orgulho ao Brasil lá fora é um tremendo sucesso revelado não apenas pelas estatísticas: qualquer pessoa que viaja pelo país vê o êxito enorme em tirar gente da miséria nos últimos dez anos. Mesmo considerando o ritmo decepcionante recente de crescimento do PIB, não se justifica querer comparar a taxa de crescimento do Brasil  com a da China. O que esse país está passando agora é o que o Brasil passou nas décadas de 1950 a 1970. A verdade é que o Brasil não aproveitou essa fase tão bem quanto os outros estão aproveitando hoje em dia, porque nunca houve uma preocupação, na fase de crescimento acelerado, de tirar as pessoas da linha da pobreza no Brasil. A China está arrancando gente da pobreza. Essa grande oportunidade de mudança do nível baixo de renda para o nível médio não foi bem aproveitada por nós. A combinação de crescimento razoável com redução acelerada da pobreza colocou o Brasil no centro das atenções no mundo. Essa atenção ainda não se desfez. O país viveu um ciclo virtuoso durante os anos Lula, porque a combinação de política social inclusiva – o Bolsa Família, os aumentos do salário mínimo – com as inovações de crédito permitiu um ganho enorme. Tudo isso foi positivo. E foi bom ter um governo mais de esquerda assumindo, para todo mundo ver que o compromisso com a estabilidade era para valer, independentemente de quem estivesse no poder. Isso causou uma queda dramática no risco do país, o que se expressou numa espécie de “dividendos da estabilização” sob a forma de investimentos privados mais altos.


O que deixou de funcionar neste momento?


Não é que deixou de funcionar. O país tinha uma taxa de crédito pessoal muito baixa em comparação com outros países. Como mudaram as condições fundamentais de risco do país e o governo Lula introduziu inovações  que, concretamente, reduziram o risco das operações de crédito, a inovação do crédito consignado, tudo isso levou a um aumento no patamar  sustentável do crédito no país. E o país usufruiu da expansão do mercado enquanto houve esse ajuste para um patamar de crédito mais alto, mas, uma vez que chegou lá, estacionou. O crédito imobiliário ainda tem chão para subir, mas a mudança de patamar no crédito pessoal com o correspondente impulso ao consumo familiar – esgotou, por enquanto.


O que precisaria ser feito para que a situação continuasse melhorando? 


Ampliar a taxa de investimentos do país, que foi baixa no período. Agora o governo parece enxergar isso com clareza, mas não vai depender apenas do investimento público como proporção do PIB brasileiro. Não há competência nem espaço fiscal para isso. A gente precisa ter o setor privado participando. O governo acordou e vai abrir espaço para conciliar a aversão ao risco do setor privado com investimentos em portos, estradas e energia. Entre outras coisas, o governo tem de incrementar as compras eletrônicas, melhorar a transparência e abrir processos de leilão bem amplos. E franquear, também, a entrada de concorrentes, inclusive do exterior. Sem isso, não vai aumentar a eficiência no setor de serviços, não vai reduzir os custos, e o Brasil vai continuar fechado. É uma pena que não estejamos tão integrados nos circuitos comerciais. Aqui fora, a lógica de organização da produção, o número cada vez maior de setores, é a lógica de cadeias integradas de valor.


De que maneira o Brasil poderia ganhar ao fazer parte dessa nova lógica?


Vou dar um exemplo prático. Esse meu iPad tem 0% de fabricação dentro dos Estados Unidos. Como os fabricantes ganham? É com os lucros de retorno de investimentos lá fora e dos royalties. Este aparelho é, na verdade, uma mistura de serviços e royalties com o produto industrial. Mas ele não é totalmente produzido na China. É parte de uma cadeia de valor de várias partes do mundo. No caso brasileiro, o avião da Embraer não é produzido inteiramente no Brasil. Ele é competitivo porque a Embraer ganha o dinheiro correspondente ao valor da capacidade de design que a empresa tem. A turbina vem não sei de onde, talvez da Inglaterra. A Embraer é uma cadeia de valor bem-sucedida. É fundamental que os custos de comércio, inclusive tarifas e restrições regulamentares, não sejam grandes entre um ponto e o outro da cadeia, porque senão destrói os elos. Isso se aplica no Brasil, que tem elos caros e ineficientes de custo portuário e aeroportuário e muitas regulamentações. Assim não tem como fazer parte de uma cadeia mundial e fica fora da competição em muitos setores industriais.


Faltaram os acordos bilaterais, como muita gente insiste?


Pode ser, mas isso não esgota a questão. O importante é que as exportações façam parte de uma cadeia de valores que inclua melhores serviços, transporte e inovação, como no caso que citei do iPad.


A Petrobras foi na contramão dessa receita?


O caso da Petrobras é uma ilustração perfeita. A Colômbia refez sua estatal de petróleo, a Ecopetrol, inspirada no sucesso do modelo da Petrobras no passado. Eu estava no BID, na época, e conversava sobre o modelo Petrobras com o presidente do banco, Luis Alberto Moreno, que é colombiano. Eu fazia relatórios sobre a Petrobras e lembro, muito  bem, que ele encaminhou um desses estudos para o governo colombiano. Era uma comparação do que tinha acontecido com a Petrobras como modelo de sucesso com a PDVSA, a estatal venezuelana, e a Pemex mexicana. As duas deixaram de investir, inclusive em prospecção, e perderam a capacidade de competir, enquanto o oposto havia ocorrido no caso brasileiro. Agora, anos depois, verifica-se que, no Brasil, parte substancial da queda de investimentos no país, no ano passado, deveu-se à paralisia da Petrobras. Porque passou a ser usada como instrumento anti-inflacionário e é obrigada a pagar mais caro por um programa ambicioso de conteúdo local. O resultado disso é que a Petrobras não consegue crescer e se expandir no ritmo necessário.


Ou seja, a  Petrobras deixou de mirar no lucro quando assumiu outras funções?


Em qualquer mercado no mundo, você só aloca dinheiro no negócio se considerar que a combinação risco-retorno é compatível. Então eu, como cidadão, vou “comprar” (a Petrobras) não porque acho que ela tenha função social, mas para ter o meu dinheiro de volta. Para que eu compre papéis da empresa, ela tem de mostrar lucro e capacidade de pagar de volta.


A colombiana Ecopetrol está com valor de capitalização maior que o da Petrobras, não é mesmo?


Sim. Esse é um dos fatores do namoro dos mercados com a Colômbia e o México e o descaso com o  Brasil. O novo presidente mexicano está mostrando sinais e atos concretos na direção da agenda que agora virou xingamento, mas que não tem outro nome melhor, de mudanças estruturais. O Brasil tem algumas ações isoladas nessa direção. Minas Gerais é considerado, pelo nosso pessoal que acompanha a gestão nacional, o estado mais bem administrado. O Eduardo Campos, em Pernambuco, também começou a mexer com os interesses incrustados para melhorar estruturas de incentivos para a qualidade do ensino, ao invés de dormir sobre os louros do passado. O país está caminhando nessa direção. Tem de abraçar uma nova agenda. O ministro Mantega disse isso, em outras palavras, em um depoimento na Câmara dos Deputados.


Mas ele falou que a bola de cristal estava meio defeituosa...


Sim, mas ele também mencionou que a ênfase nos estímulos não pode ser no consumo, e sim em como levantar a taxa de investimento. Mas o setor privado é um animal muito cauteloso e complicado.


Como assim? O senhor tem dito que é preciso uma mudança na postura das empresas que queiram, por exemplo, tornar-se exportadoras.


Eu não tenho muita fé nisso. O setor privado é, por natureza, passivo e avesso a risco. Ele vai aceitar uma regra nova, mas vai apenas ajustar o capital já investido a essa mudança. Mas nem a pau ele vai tomar dinheiro emprestado e emitir ações para poder aumentar os investimentos se a relação risco-retorno esperada não lhe for atraente. As empresas se adaptam com base em uma avaliação de risco e retorno. Tem os riscos do business, que são normais. Mas aí é intrínseco à função do empresário viver com os riscos e administrá-los.  O que é difícil para o setor privado é ter riscos que fogem ao seu controle, como a volatilidade nas decisões de política, da corrupção. Desses riscos, o setor privado foge como o diabo da cruz.


 



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