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Jogo de sedução

Países de todo o mundo abrem agências no Brasil para atrair investimentos. Na disputa pela criação de empregos em seus países, oferecem incentivos fiscais e acesso a seus mercados

Suzana Camargo
Yves Lapere (à esq.), da agência belga FIT, na Intermodal em São Paulo: atrás do investidor brasileiro

Que as grandes empresas multinacionais dos países mais desenvolvidos fazem parte do dia a dia dos brasileiros todo mundo vê. Basta olhar os automóveis nas ruas, ir a um supermercado ou ligar a TV. Tem sido assim há cerca de um século, em particular na meia década dourada do governo do presidente Juscelino Kubitschek, nos anos 1950, quando o país se tornou, de vez, um destino preferencial para grandes corporações europeias e norte-americanas atraídas por um acelerado processo de industrialização e urbanização (logo viriam, também, as asiáticas).


No decorrer desse período — e ainda hoje, depois da estabilização da moeda e da melhor redistribuição da renda alcançadas nas duas últimas décadas — tal movimento representou a entrada de um grande volume de capitais estrangeiros no Brasil. A novidade é que, de alguns anos para cá, esse fluxo ganhou uma segunda mão no sentido inverso. Empresas brasileiras se tornaram, elas também, multinacionais, “expatriando” recursos, tecnologia e conhecimento para criar negócios e unidades de produção lá fora. O mundo percebeu a mudança. Um dos sinais é a presença, cada vez maior no país, de agências de países estrangeiros que disputam entre si investimentos brasileiros capazes de fomentar o crescimento econômico em seus países.


Escritórios de representação comercial de outros países estão instalados no Brasil há muito tempo. Mas até há pouco a missão deles era apenas a de facilitar a chegada ao mercado brasileiro de suas empresas multinacionais. Hoje, esse papel mudou: é, também, o de atrair capital e empresas brasileiras internacionalizadas para suas terras de origem. Essas agências estão aqui para oferecer não só produtos, mas também oportunidades; trabalham para que os empresários brasileiros levem negócios para seus países, ali se instalem, ofereçam empregos para a mão de obra local e paguem impostos a seus governos. Um trabalho de atração e sedução no qual oferecem, em troca, o acesso desimpedido a seus mercados.


Tal transformação acontece por dois motivos principais. Primeiro, esses países – notadamente da Europa e da América do Norte – sofreram, e estão sofrendo, os rigores de uma crise econômica global que se alonga desde 2008 e também atingiu o Brasil, mas com intensidade menos destruidora. Daqui, acreditam os responsáveis por essas agências, podem vir soluções para amenizar os efeitos dos problemas econômicos em seus países. “Com a alta da taxa de desemprego (nos países ricos), cresceu o interesse em atrair mais empresas estrangeiras”, confirma Fábio Yamada, diretor da Trade and Investment, uma agência que cuida dos interesses, no Brasil, de seis estados americanos, entre eles a Pensilvânia e a Flórida.


O segundo motivo é o amadurecimento e a maior disposição das empresas brasileiras para saltar as fronteiras do país e se tornar globais. Foi, por assim dizer, a união perfeita entre a fome e a vontade de comer. Para muitas companhias brasileiras a crise trouxe a oportunidade de fazer aquisições em condições vantajosas. Apenas entre 2010 e 2012, empresas do Brasil e de outros países dos Brics, como Rússia, Índia e China, investiram mais de 100 bilhões de dólares na compra de ativos na Europa, Estados Unidos e Japão, segundo dados da Organização das Nações Unidas (veja quadro abaixo).  Só no ano passado, segundo dados do Banco Central, os investimentos brasileiros lá fora atingiram 13,7 bilhões de dólares (veja gráfico na pág. 39).


No total, estima-se em 230 bilhões de dólares o estoque de investimentos de empresas brasileiras no exterior. Previsivelmente, o mundo hoje vê o maior país da América do Sul como um exportador de investimentos e pátria de multinacionais com poder de fogo para incursões fora de suas fronteiras. Um movimento que se iniciou nos anos 1970, quando as primeiras companhias de engenharia começaram a tocar obras na África e no Oriente Médio, e acelerou-se de maneira nunca vista nos últimos dez anos.


Portanto, diversas agências estrangeiras estão aqui e querem levar empresas brasileiras e seus dólares para os seus países de origem. Mas quem são elas e de que maneira fazem isso? Elas são dezenas, e podem atuar de maneira autônoma ou atreladas aos consulados dos seus países. Alguns desses países estão mesmo representados por mais de uma entidade, como a Suíça, que conta com o Swiss Business Hub Brazil, a agência de investimentos do governo federal, e a Great Geneve Berne Area (GGBA), que representa alguns dos cantões (unidades federativas) do país. A Bélgica também tem agências regionais — a Flanders Investment & Trade – FIT, da região de Flandres, a porção norte do país, e a Awex – Invest in Wallonia, que cuida dos interesses da região sul da Bélgica, além da Brussels Invest & Export, que cobre a área de Bruxelas.


A Grã-Bretanha, um dos países mais ativos recentemente na prospecção de investimentos brasileiros, tem instalado no Brasil o UKTI, United Kingdom Trade & Investment, que possui grande capilaridade — a partir dele, é possível entrar em contato com agências regionais das diversas nações que integram o Reino Unido, como Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales, e órgãos representantes de cidades como Manchester, Birmingham e Londres. Já a França tem a Invest in France; e a Holanda, a Netherlands Foreign Investment Agency – NFIA. “As empresas brasileiras, durante muito tempo, estiveram satisfeitas com o mercado doméstico, mas para algumas ele já não é mais suficiente”, afirma Egbert Hartsema, que comanda a agência holandesa de investimentos. Holandês de nascimento, mas crescido no Brasil, o que lhe garante um português sem nenhum sotaque, Hartsema conhece de perto a história da economia brasileira e garante que este é o momento certo para conquistar empresários dispostos a investir em seu país. A opinião é compartilhada por outro colega (e concorrente) estrangeiro. “Há empresas sofisticadas neste país, com gestores preparados para aproveitar as oportunidades do mercado mundial”, diz Martin Matter, do Swiss Business Hub Brazil. “Eles dispõem da agilidade e da agressividade necessárias para fazer sucesso.”


Para esses países, ficou para trás o tempo em que era possível esperar, sentados em seus escritórios, os negócios baterem à porta. Essas agências agora participam de feiras, promovem rodadas de negócios e visitam regiões brasileiras onde há maior dinamismo da economia. Estão no interior paulista, em cidades-chave, como Campinas, São José dos Campos e Ribeirão Preto. Percorrem o Centro-Oeste, onde veem a força dos exportadores de commodities, e podem ser encontrados no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre ou nas maiores capitais do Nordeste.


Um caso singular é o dos Estados Unidos. Embora tenha sido no ano passado o país mais procurado por brasileiros dispostos a investir fora de casa, os americanos, fiéis a seu princípio político de descentralização, mantêm uma frente de trabalho pulverizada na captação de investimentos. São os estados americanos que tomam a frente no trabalho de atração, e não o governo federal. “Desde 2010, os estados americanos tornaram-se mais proativos e começaram a buscar investidores internacionais. Do lado de cá, os empresários brasileiros estão viajando mais e vendo que os Estados Unidos oferecem amplas oportunidades de negócios”, afirma Fabio Yamada — o representante da Flórida, da Pensilvânia e de mais quatro estados americanos no Brasil — em seu recém-ocupado e espaçoso escritório em São Paulo. Aliás, o escritório em que trabalha parece mais amplo do que o necessário, mas foi uma exigência do governo da Flórida, interessado em impressionar os investidores com um espaço grandioso.


Algumas vezes, essas agências só despertam para o potencial brasileiro depois de surpreendidas por investimentos espontâneos feitos em seus países. Tome-se o exemplo da Pensilvânia. Em 2006, o escritório de tecnologia de Campinas CI&T instalou-se em Pittsburgh, a segunda cidade do estado. Inicialmente com um funcionário, a CI&T tem hoje mais de 30 pessoas na empresa. Há pouco mais de dois anos, a Braskem comprou, por 350 milhões de dólares, a Sunoco Chemicals, que tem sede em Filadélfia, a maior cidade. E, em fevereiro deste ano, Pittsburgh ganhou as manchetes dos cadernos econômicos de todo o mundo, quando foi anunciada a aquisição da gigante Heinz – famosa pelos molhos de ketchup e mostarda – em um negócio de 23 bilhões de dólares. Os compradores? O executivo brasileiro Jorge Paulo Lemann e parceiros, em sociedade com o investidor americano Warren Buffett.


Quando viram o ketchup mudar de mãos, as autoridades estaduais resolveram olhar melhor de onde vinham aqueles homens de negócio. “Investidores brasileiros se tornaram uma parte importantíssima dos investimentos estrangeiros diretos no estado e do nosso planejamento estratégico”, diz Tom Corbett, governador da Pensilvânia. Impressionado, Corbett decidiu atravessar a linha do Equador para conhecer de perto a fonte desses bem-vindos investimentos. Veio, em pessoa, ao Brasil, em abril, junto com uma grande comitiva, para se encontrar com investidores, empresários e autoridades — uma agenda que foi mantida em sigilo durante a preparação da viagem. Sigilo que, diga-se, é uma parte importante da prospecção de investimentos, em particular de grandes empresas.


Enquanto a decisão para abertura de uma pequena empresa no exterior pode ser rápida, os estudos para a instalação de uma grande multinacional em outro país podem levar anos. Durante esse tempo, as agências que trabalham na negociação tentam manter em segredo o processo, para que outro país não ofereça um pacote mais vantajoso. A agência holandesa, por exemplo, revela estar prospectando dez empresas brasileiras. O diretor Hartsema não dá nomes — no máximo, algumas pistas. Um desses empreendimentos é uma empresa familiar, do setor químico, que vende matérias-primas para a indústria, diz ele. A Holanda possui um conhecido polo químico no sul do país, Chemelot, e um dos sistemas portuários mais modernos do mundo. O porto de Roterdã é o maior e mais importante da Europa, desde o advento da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, há quase 400 anos. O outro empreendimento que pretende entrar no mercado europeu por intermédio de um escritório na Holanda tem sede em Salvador, trabalha na área de divulgação de imagem e cuida de clientes como Grendene e Ivete Sangalo.


Na disputa pelos investimentos brasileiros, há espaço para corredores de todas as musculaturas. Nações pequenas ou que têm sua economia ainda em desenvolvimento também são atuantes. Eslovênia, Chile, Equador, Colômbia, Zimbábue e Turquia, entre outros, também querem sua fatia do cobiçado bolo brasileiro. Onde houver uma oportunidade de um bom negócio, eles colocam o pé na estrada. E bom negócio não são apenas investimentos milionários. As agências desses países atendem pequenos e grandes investidores, e, para atrair freguesia tão diversificada, o cardápio de ofertas é extenso: isenção fiscal; agilidade para abertura da empresa; subsídios e movimentações sem restrições em zonas de livre-comércio; e financiamentos para pesquisa e desenvolvimento.


A experiência do empresário paulista Rodrigo Scaff ilustra como se dão essas tratativas. Scaff acaba de se mudar para Londres. Um dos sócios da Suriana, uma consultoria de São Paulo especializada em planos estratégicos para expansão internacional, e com clientes como Tramontina, Miolo Wine Group e São Paulo Alpargatas, ele será o responsável pela abertura do primeiro escritório da empresa no exterior. “Será muito benéfico ter uma presença física fora do Brasil”, afirma Scaff.


No processo de mudança, a empresa paulistana contou com o suporte do UKTI, a agência britânica de captação de investimentos. A agência, que já está no Brasil há dez anos, esclareceu dúvidas em relação aos procedimentos para a abertura da empresa em Londres, as taxas e os impostos locais, o visto mais apropriado e ainda questões sobre a vida na Inglaterra, como custos com moradia, educação e saúde. Recomendou, também, escritórios de contabilidade e de relocação.


O UKTI fez mais. Apresentou Scaff ao programa Touchdown, da sua parceira London & Partners, a agência oficial de promoção e investimentos da cidade de Londres. “Durante um ano, vou compartilhar um escritório com outras empresas para iniciar o negócio europeu, pagando 100 libras por mês”, comemora o brasileiro — um valor para lá de módico na cara capital londrina. O pacote de benefícios oferecidos pela agência britânica é um bom exemplo das facilidades que estão à disposição das empresas brasileiras de pequeno porte interessadas em se aventurar no exterior.


A pièce de résistance entre todas as atrações oferecidas ao investidor brasileiro é a localização. Todas as agências de nações europeias garantem que seu país é não apenas a mais larga porta de entrada para o continente, como também um rápido atalho para os mercados americano e asiático. E a questão não é apenas geográfica, garantem os especialistas da área. Há, também, um certo quê, digamos, psicológico. “Ter um cartão de negócios com sede em Londres abre portas para qualquer empresa”, garante Fabrício Mazzari (*) gerente do UKTI em São Paulo. “O Reino Unido é um hub para o resto do mundo.”


Mazzari sabe do que está falando. A agência tem comemorado um crescimento anual de 10% a 15% nos negócios que atrai no Brasil. Nos últimos cinco anos, ajudou 32 empresas verde-amarelas que decidiram expandir ou abrir escritórios no Reino Unido. A expectativa é que até 2015 outros 30 empreendimentos sejam levados para lá. Uma vez instaladas no Reino Unido, as companhias tornam-se britânicas e podem usufruir dos serviços do UKTI em todo o mundo. Só no ano passado, nove organizações brasileiras anunciaram investimentos no Reino Unido, entre elas a Marfrig, a JBS Friboi (na Irlanda do Norte) e os bancos Itaú BBA, o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), Bradesco e Banco do Brasil. Dessas, tanto o BNDES quanto o Itaú BBA utilizaram os serviços do UKTI. “No caso do Itaú, ajudamos não somente com a instalação, mas também com a expansão e a mudança da matriz europeia de Lisboa para Londres”, diz Mazzari.


Já a Great Geneve Berne Área (GGBA) representa comercialmente seis cantões (unidades equivalentes a estados) da Suíça: Berna, Friburgo, Vaud, Neuchâtel, Genebra e Valais. A GGBA coordenou, recentemente, a ida de duas empresas brasileiras para a Suíça, a gaúcha HT Nutri, de pesquisa e desenvolvimento de alimentos, e a Siena Idea, companhia de tecnologia de informação de Campinas (SP). “Há alguns anos, o Brasil vem despontando como um país de potencial interessante para esses cantões”, analisa Hamilton Belizário, representante da GGBA. Como faz Mazzari, da agência britânica, Belizário também defende o efeito ‘cartão de visitas’ que a presença na Europa é capaz de trazer. “Acho que as empresas brasileiras entenderam que internacionalizar o seu negócio não é uma atividade que se possa fazer do escritório do Rio de Janeiro, São Paulo ou Mato Grosso”, diz. “De longe não é possível tratar o cliente com a atenção que ele merece.”


É inegável que estar instalado na Europa, um mercado com 740 milhões de potenciais consumidores, 50 países e uma economia que produz um terço de toda a riqueza mundial, conta pontos para qualquer empreendimento econômico. No entanto, se o que se busca são facilidades e incentivos econômicos, pode valer a pena ir até o outro lado do mundo. Em Hong Kong, mais exatamente. Uma das maiores atrações que esta região administrativa especial da China oferece é a quase inexistência de impostos. Ali não há imposto sobre produtos e serviços ou que incidam sobre ganhos de capital. Não há imposto retido na fonte nem sobre dividendos e juros. Não é cobrada taxa sobre herança ou sobre ativos no exterior ou na própria Hong Kong. Nem mesmo sobre o vinho é aplicada qualquer tipo de taxa.
“Abrir uma empresa em Hong Kong leva menos de uma hora para completar o registro e a incorporação, e isso pode ser feito pela internet, em um site do governo”, explica Danilo Hartfiel, executivo de contas da InvestHK, no país desde dezembro de 2011. Além disso, Hong Kong oferece acesso fácil ao mercado asiático, sobretudo à cobiçada China continental.


Segundo Hartfiel, empresas como a Vale, CSN, Banco do Brasil, Banco BTG Pactual, Fibria, Marfrig, Perdigão, TAM, Bradesco Securities, Copersucar e Falcão Bauer chegaram à Ásia passando por Hong Kong. “As empresas que mais facilmente se internacionalizam ali são aquelas ligadas aos mercados de TI e Telecomunicações”, diz. “Além disso, Hong Kong tem grande experiência em incubadoras de empresas tecnológicas, oferece uma mão de obra extremamente preparada e políticas governamentais que incentivam os startups.”


Para se ter mais uma mostra da importância que vem sendo dada aos investimentos brasileiros mundialmente, basta observar a linha do tempo da atuação da FIT, a agência de Flandres, no norte da Bélgica. Estabelecida em São Paulo desde 1998, a FIT só criou um braço dedicado a investimentos a partir de 2009, embora os belgas já estivessem impressionados com a potencialidade brasileira desde a icônica fusão, em 2004, da empresa brasileira de bebidas AmBev com a belga Interbrew. “A criação da InBev (como foi nomeada a empresa resultante dessa fusão) deu uma grande visibilidade ao potencial dos empresários brasileiros, quando o negócio foi fechado”, afirma Yves Lapere, conselheiro econômico da FIT. Atualmente, a agência possui 70 escritórios espalhados pelo mundo, e os de Nova York e de São Paulo são os maiores. Na filial brasileira, há sete funcionários, dois deles contratados no ano passado. Há poucas semanas, reuniram-se todos para ajudar a vender os portos da região de Ghent na feira Intermodal, um dos maiores eventos de transporte e logística em São Paulo.


Na vizinhança sul-americana, o Equador também acordou para os investimentos brasileiros: o ProEcuador, seu órgão de fomento de negócios, aumentou o número de funcionários no escritório brasileiro. A operação ficou responsável, ainda, pela estratégia comercial e de investimentos na América do Sul e no Caribe. “O Equador designou o Brasil como prioritário, tanto para aumentar as exportações como para captação de investimentos”, revela Daniel Carofilis, diretor da agência. “Na área de infraestrutura, conseguimos mais de 400 milhões de dólares em financiamentos com empresas brasileiras para projetos estratégicos, como a Refinería del Pacífico e a Hidroelétrica Mandariacu.” A refinaria, obra que tem a construtora Odebrecht como responsável, e o projeto hidrelétrico de Mandariacu, financiado em parte pelo Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), estão gerando mais de 2 mil empregos diretos no país vizinho.


País produtor de petróleo, o Equador vem desenvolvendo um programa de atração de capitais para investimentos na exploração de minerais como ouro, prata, cobre e zinco. Tem interesse, também, em atrair capitais brasileiros para investir no agronegócio, em energia renovável, portos, aeroportos, estradas e biotecnologia, com destaque na geração de patentes e medicina natural, processamento de madeiras e renovação de florestas.


Do outro lado do Atlântico, na Eslovênia – antiga região da Iugoslávia, localizada entre a Itália e a Áustria –, o Brasil surge como o principal parceiro comercial na América Latina, segundo a agência InvestSlovenia. Nos últimos três anos, houve um crescimento de 50% em transações bilaterais envolvendo cerca de 130 companhias brasileiras que exportam para lá. O valor desses negócios chegou a 200 milhões de dólares. Para ir além das exportações e atrair capital brasileiro, os eslovenos acenam com vantagens que incluem financiamentos estatais para projetos greenfield, redução gradual do imposto de renda para pessoas jurídicas de 18% para 15%, até 2015, e isenção fiscal total para investimentos nos setores de pesquisa e desenvolvimento.


Foi beneficiando-se de um desses incentivos setoriais que a empresa paulista Nanoskin — fabricante de pele humana artificial, produtos nutricionais e cosmecêuticos — abriu recentemente uma filial em Estrasburgo, no leste da França. Com sede em São Carlos, no interior paulista, a companhia tem 70% da produção destinada ao mercado externo. Agora instalou um laboratório na cidade francesa. “Recebi a visita do diretor da agência Invest in France, que nos falou sobre as vantagens fiscais e também nos descreveu o polo de bionanotecnológicos avançados da região, o Alsace BioValley”, conta Pierre Basmaji, sócio da Nanoskin. “Recebi, ainda, orientações jurídicas para a abertura da empresa e uma apresentação dos espaços para a instalação.” O simples fato de estar localizado no país foi suficiente para alavancar alguns negócios: Basmaji conta que já recebeu contatos de várias empresas interessadas na distribuição de Nanoskin e dos futuros produtos a ser lançados na França.


A Eslovênia incentiva pesquisa e desenvolvimento em geral; a França busca indústrias ligadas à bionanotecnologia. E, na Irlanda, a Industrial Development Agency (IDA) quer atrair empresas da área de TI, da área biológica, serviços financeiros, engenharia, mídias digital e social, games e as que utilizem tecnologias limpas. Os pacotes de incentivos oferecidos incluem financiamentos para iniciar startups, além de descontos nos impostos. E a Irlanda oferece, também, votos de encorajamento e torcida. “Companhias com altas doses de tecnologia trazem novas ideias e novos modelos de negócio, elas são as sementes das futuras multinacionais, seja pelo crescimento, fusões ou aquisições por organizações mais estabelecidas”, afirma Renate Buzon, da IDA.


A Holanda, por sua vez, tem interesse em incentivar investimentos nas áreas de agri-food, horticultura e logística. Já a Suíça, um polo financeiro mundial, tem portas abertas para bancos e instituições financeiras. Em 2012, o país assistiu à aquisição do Banco Sarasin, da Basileia, pelo grupo brasileiro Safra, e à ampliação de operações do Itaú em Zurique.


Em geral, grandes multinacionais fazem o caminho das pedras por conta própria ou entram em contato diretamente com governos locais para negociar incentivos e benefícios. Foi o que fizeram o Safra e o Itaú, em que as transações se deram sem a participação do Swiss Business Hub Brazil, a agência de investimentos do governo da Suíça que, juntamente com a GGBA, representante comercial dos já citados seis cantões suíços, está no Brasil para atrair investimentos. Negócios vultosos assim colocam o país também no radar das micro, pequenas e médias empresas, que se animam a procurar oportunidades de ampliar seus negócios. As agências de investimentos estão de olho exatamente nessas empresas de menor porte. “A Suíça é mais atraente para empresas brasileiras que podem se integrar aos clusters econômicos preestabelecidos”, afirma Martin Matter, diretor do Swiss Business Hub Brazil.


Eis aí uma diferença bem definida entre o que as representações dos países mais ricos e aquelas das nações em desenvolvimento querem garimpar no Brasil. As agências dos países em desenvolvimento, como os vizinhos latino-americanos, priorizam investimentos mais básicos – mineração, indústria pesada, energia, infraestrutura, agronegócio de exportação. Já nos países mais desenvolvidos, o tapete vermelho é estendido para atividades de alto valor agregado e de pouco impacto sobre o meio ambiente. Agências de países ricos, como Holanda, Suíça, Bélgica e França, interessam-se mais por indústrias avançadas e limpas e tudo o que diz respeito a energias renováveis. Ou, ainda, serviços de ponta, como os financeiros e logísticos. “A campanha Diga OUI à inovação, diga OUI à França dá uma atenção especial às iniciativas que carregam a inovação em seu DNA”, diz François Removille, diretor da Invest in France, a agência francesa. Empresas das áreas de ciências da vida (biotecnologia, nanotecnologia, medtech, farma) e de desenvolvimento de softwares são as mais buscadas.


O pioneirismo do Brasil na pesquisa e produção de matrizes energéticas alternativas sempre faz brilhar os olhos dos estrangeiros. Países como os Estados Unidos, Chile, Holanda, Bélgica e, principalmente, a Inglaterra têm grande interesse na aplicação de recursos de P&D em energias renováveis. O Reino Unido estabeleceu um plano ambicioso de reduzir em 50% a emissão dos gases CO2 até 2027, e em 80% até 2050. Para isso precisa de toda a ajuda possível. A Suíça oferece incentivos especiais para a importação de bioetanol e produção local de energia solar e eólica. Também Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, está procurando investidores brasileiros nessa área de energia limpa. O emirado está envolvido na construção de Masdar, que pretende ser a primeira cidade totalmente sustentável do mundo. Mas não se tome ao pé da letra que os países ricos querem produtos com alto valor agregado e os países em desenvolvimento, negócios mais básicos. Prova de que ninguém despreza uma boa e rentável commodity é a presença na Bélgica da Citrosuco, uma das maiores produtoras mundiais de suco de laranja. “Nosso maior mercado consumidor é a Europa. A Bélgica foi escolhida como base internacional por possuir infraestrutura portuária e uma malha de distribuição excelentes”, afirma Fábio Álvares da Silva, gerente-geral de logística da empresa. A Citrosuco tornou-se mundial na década de 1980, época em que a FIT, a agência de investimentos de Flandres, ainda não estava no Brasil. Mesmo não tendo participado do processo inicial de instalação da empresa brasileira, a agência lhe presta assessoria para os projetos de expansão. No total, 80 belgas trabalham na Citrosuco, que fornece a matéria-prima para engarrafadores na Europa, Rússia e Oriente Médio. Outra distribuidora de commodities, a CBL Tank Terminals, subsidiária do Grupo InterAlli, com sede em Curitiba, no Paraná, também está iniciando sua operação na Bélgica. Especializada em etanol, óleos vegetais, diesel e outros produtos, a CBL investirá 104 milhões de dólares em um terminal de granel líquido no Porto de Ghent, que deverá estar pronto em 2015.


Para as agências, tão importante quanto a injeção do capital estrangeiro nos seus países é a geração de empregos. “O ideal é que, num prazo de três anos, ao menos cinco funcionários sejam empregados”, diz Hartsema, da NFIA holandesa. “O foco final é sempre a geração de empregos, seja por meio de exportações ou investimentos”, reforça Lapere, da FIT. Só na Suíça, que recebeu, em 2011, 10 bilhões de dólares em investimentos estrangeiros diretos, as empresas de fora empregam 250 mil pessoas. O interesse internacional pelo Brasil enquanto exportador de capitais e empresas é mais que um fato conjuntural. Veio para ficar. E quem não chegou ainda está se apressando. Veja-se o exemplo das Filipinas, país emergente localizado no Sudeste Asiático, próximo de Taiwan e da Indonésia. As Filipinas não têm uma agência no Brasil, e suas transações internacionais são intermediadas pelas embaixadas e por um escritório comercial em Washington (EUA). Mas logo isso deverá mudar. “Temos planos para instalar uma agência em São Paulo, que seria, também, responsável por negócios com outros países da América do Sul”, explicou Eric Valenzuela, vice-cônsul do país em Brasília. Segundo Valenzuela, o país pode oferecer às empresas brasileiras uma localização estratégica, a meio caminho para a China e outros mercados asiáticos, uma força de trabalho de qualidade que fala inglês (as Filipinas foram colônia dos Estados Unidos por quase 50 anos), expertise em TI e outsourcing em processos. “Já está prevista a vinda de uma missão comercial ao país para convidar empresários brasileiros a investir nas Filipinas”, diz. ”O Brasil é uma das maiores economias do mundo, e as Filipinas têm o que aprender aqui.”


 



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