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Bicho caros

Empresária cria jacarés em Alagoas para exportar a pele e acessórios cobiçados no mercado de alto luxo.

Suzana Camargo
Criatório em Maceió: custos baixos

A paulista Cristina Ruffo hoje conhece tudo sobre os hábitos e a criação do Caiman latirostris, o nome científico do brasileiríssimo jacaré-de-papo-amarelo. Mas seu primeiro encontro com o animal rendeu um grande susto. Cristina era jornalista, morava e trabalhava em São Paulo. Aos 34 anos, teve um infarto e decidiu recomeçar a vida de forma menos estressante em Maceió, a capital de Alagoas. Lá, abriu um restaurante ao lado do segundo marido, o italiano Silvio Garabuggio. Para suprir a demanda do restaurante, o casal começou a criar tambaquis, um peixe de água doce muito saboroso, num lago artificial. Certa vez, ao avaliar o crescimento dos alevinos, uma surpresa: “Quando puxamos a rede, vieram três jacarés jovens”, conta Cristina. 


O susto deu lugar à curiosidade, e logo ao espírito empreendedor. Cristina e o marido descobriram que os hóspedes inesperados também podiam ser criados de forma sustentável. Melhor ainda, abriam perspectivas de bons negócios no mercado de acessórios de luxo — sapatos, bolsas e carteiras fabricados com o couro dos animais. A resposta foi a criação da Mister Cayman, empresa que hoje tem um plantel de mais de 16 mil jacarés, com valor estimado em 180 milhões de reais. No ano passado, comercializou 120 mil centímetros de pele do animal. Da produção total, 70% tiveram como destino o mercado externo. 


Cristina é discreta quanto à identidade dos importadores, mas dá algumas dicas. “Tenho clientes que trabalham com o couro do jacaré e confeccionam sua própria linha de produtos”,  diz ela. “A marca Borelli, de Turim, é uma delas, e estamos em negociação com outras.” A discrição faz parte do negócio, já que essa é uma matéria-prima bastante disputada  por grandes marcas, que a utilizam em produtos caríssimos — um sapato de couro de jacaré custa, em média, 3,2 mil dólares na Europa, diz Cristina, e uma bolsa Hermès de pele de crocodilo pode ser encontrada em sites de vendas de segunda mão, nos Estados Unidos, por 18 mil dólares (se o cliente quiser entrar na fila para comprar uma peça nova na loja da marca, pode ter de esperar alguns anos e pagar três vezes isso).


Para entrar nesse valioso e restrito nicho de mercado, foi preciso aprender muita coisa. Depois que os três pequenos jacarés apareceram na propriedade em Maceió, Cristina e o marido, que é etólogo (estudioso dos hábitos dos animais), conseguiram levar até Alagoas um professor da Universidade de São Paulo (USP), especialista no Caiman latirostris. Um criatório foi montado em 1994 com os três primeiros jacarés. Seguiram-se anos de investimentos e estudos. Cristina visitou várias vezes a Austrália e os Estados Unidos, países com larga experiência na criação de crocodilos e jacarés. “Fomos adaptando as técnicas que vimos ali ao clima do Nordeste”, conta Cristina. “Nosso criatório foi nosso laboratório.” O investimento nos anos iniciais não foi pequeno — a empresária calcula, aproximadamente, 3 milhões de reais. Mas ela diz que sempre teve confiança no retorno. 


A demanda por peles de jacaré e crocodilo está em alta no mundo (leia mais sobre a diferença entre os dois produtos na pág. 64). Em 2009, o grupo Hermès divulgou que estava investindo num criatório próprio de crocodilos na Austrália para garantir o suprimento do couro usado nas bolsas da marca. Na época, a empresa francesa fabricava 3 mil bolsas de crocodilo por ano, e eram necessários de três a quatro crocodilos para produzir uma única peça. De acordo com um estudo recente do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas – o World Trade in Crocodilian Skins 2008-2010/UNEP – , foi exportado 1,3 milhão de peles de crocodilos e jacarés em 2010, um aumento em relação ao ano anterior, com pouco mais de 1 milhão de unidades comercializadas. Os maiores exportadores foram os Estados Unidos, a África do Sul, o Zimbábue e a Colômbia. 


O levantamento mostra que a oferta da espécie Caiman latirostris, natural do Brasil e da Argentina, tem aumentado no comércio mundial. Tudo indica que não se trata de uma febre passageira. “Acessórios de moda feitos com esse tipo de couro, que sempre foi considerado um material muito fino e nobre, são comercializados há pelo menos um século", confirma Silvio Passarelli, diretor do programa Gestão do Luxo da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Não é à toa que, de fornecedora de matéria-prima, Cristina tenha decidido subir de patamar na cadeia de produção. Ela lançou, no ano passado, a marca própria DuMotier.


A intenção é multiplicar o faturamento da Mister Cayman com a venda de sua própria linha de acessórios, criados por um designer contratado na Itália e produzidos numa fábrica que montou em Maceió. Ali, 60 funcionários, treinados por profissionais de Florença — e alguns trazidos de lá — confeccionam, manualmente, de 400 a 500 peças por mês. São sapatos femininos e masculinos, bolsas, carteiras e cintos. A previsão é de que em 2013 a fábrica consiga produzir mil peças. E não mais que isso.


Nesse mercado, afinal, raridade é lucro. “O grande lance desse material é a escassez”,  diz Gabriela Otto, professora do curso de Marketing de Luxo da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM). “Nunca vai ser uma economia de grande escala, porque, nesse caso, o consumidor não veria satisfeito o desejo de ter algo exclusivo, raro e de difícil confecção.” Cristina concorda com essa visão. “Não trabalhamos com o aumento de plantel, e não queremos abater mais animais”, diz ela. “Já ganhamos o bastante com o pouco que produzimos.” 


A maior demanda pelos produtos feitos com couro de animais considerados exóticos vem daqueles que a professora Gabriela define como os mercados mais maduros: a Europa e o mundo árabe. Nos países europeus, os consumidores mais ávidos são os italianos e os franceses. Já na Alemanha esse tipo de produto encontra mais resistência por causa de dúvidas ambientais. Muitos consumidores sentem-se desconfortáveis em comprar qualquer coisa feita com a pele natural de animal, esteja ele ou não em risco de extinção. É também essa uma das razões pelas quais as grifes internacionais fazem questão de garantir que a matéria-prima utilizada tenha origem legal e seja certificada por órgãos de proteção ambiental e animal (leia mais na pág. 62).


Os sapatos e as bolsas da DuMotier já são exportados para Dubai, Espanha, Itália e Inglaterra. Para isso, foi montada uma equipe de apoio internacional, com representantes da marca no Reino Unido e na Itália. Cristina, que fala francês, espanhol e italiano, faz questão de sempre estar presente nos contatos iniciais com possíveis compradores. Ela também expôs seus produtos na Mipel, feira do setor em Milão. No futuro bem próximo, pretende trabalhar somente com a confecção e exportação dessas peças de alto valor agregado, encerrando a exportação de peles. 


Os planos não param por aí. Ela estuda a possibilidade de abrir franquias da marca DuMotier no Brasil e em outros países. Além disso, toca duas novas frentes de negócios: a MrKrocco, que comercializa a carne dos animais abatidos — o quilo pode custar entre 45 e 100 reais — e o projeto Jacaré Sustentável, que oferece a investidores criatórios individuais com 80 animais reprodutores. O investimento inicial exigido é de quase 1 milhão de reais. Um novo complexo está sendo construído numa área de 45 hectares, em São Miguel dos Campos, a 50 quilômetros do atual criatório. A obra deve ficar pronta em três anos, e a expectativa é de que nasçam 40 mil filhotes por ano.


Pelo trabalho pioneiro, Cristina recebeu, este ano, o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios. A entidade a ajudou a desenvolver a documentação necessária para a exportação de seus produtos. Essa parceria fez com que, mais tarde, ela desse algumas aulas sobre o negócio para produtores do Pantanal e de Alagoas. Como se vê, Cristina, que saiu de São Paulo para ter uma vida mais calma no Nordeste, não conseguiu reduzir o ritmo. “De março a outubro de 2012, só passei 21 dias em casa”, conta. “Em breve, vou dar uma voltinha na China, porque tenho recebido muitos e-mails de interessados de lá.” Por acaso não tem medo de que o negócio fique grande demais? “Ele já está!”, responde ela, rindo.


 


 


Sem risco de extinção


 


Para chegar ao mercado internacional, a Mister Cayman teve de vencer um desafio: provar que sua operação era sustentável e não representava risco de extinção para o jacaré-de-papo-amarelo brasileiro. O animal está inscrito no apêndice I da Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Flora e Fauna Selvagem (Cites) — espécies que saíram da lista das ameaçadas de extinção em seus países de origem, mas que ainda correm perigo em outras partes do mundo. Esses animais, quando criados em cativeiro, só podem ser comercializados a partir da terceira geração — ou seja, os netos da primeira geração do criatório — e isso tem de ser comprovado por meio de projetos e provas em vídeo e fotos. 


Só em 2011 a Mister Cayman recebeu a autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para exportar a pele de seus Caiman latirostris. Cristina e seus auxiliares tiveram de madrugar, meses a fio, ao longo de cinco anos, para produzir a documentação exigida. Os jacarés se acasalam e postam os ovos durante a madrugada, entre setembro e abril. Os ovos eclodem depois de aproximadamente 76 dias em chocadeira elétrica. “Fazíamos filmagens e fotografávamos tudo, diariamente, durante o período de acasalamento e postura das fêmeas, que acontece somente uma vez por ano”, relata Cristina.


Hoje, o criatório está na quarta geração, a dos bisnetos da primeira leva. Aos compradores do couro interessa ter em mãos uma pele em excelente estado, sem ferimentos, cicatrizes e ranhuras, o que exige monitoramento constante e cuidados especiais. “A pele do animal livre na natureza enfrenta desgastes com secas e chuvas, além de sofrer com as brigas”, afirma Cristina. Nos criatórios, os jacarés ganham estufas, para manter a saúde e a qualidade da pele, e são objeto de pesquisas para melhoria genética. 


Diariamente, os 16 mil animais da Mister Cayman consomem duas toneladas de carne de aves (sobras impróprias para o consumo humano). Segundo Cristina, o custo para manter o criatório de Maceió é baixo. Trabalham com ela três técnicos em manejo dos animais e pessoal administrativo. Silvio, o marido, cuida da alimentação e da reprodução. “O manejo é mínimo e construímos alguns equipamentos customizados para o trato com os jacarés”, diz ela. Os animais são abatidos entre 18 e 24 meses de idade. O referencial para o abate não é o peso, mas sim a medida linear da parte mais larga da barriga — depois de abertas, as peles têm de ultrapassar 40 centímetros de largura (essa medida máxima da barriga em centímetros é também o padrão usado no comércio internacional de peles). Duzentos animais são abatidos por mês. As fêmeas e os animais de maior porte são poupados para fins de procriação e melhoria genética.


 


 


Crocodilo ou jacaré?


 


Para os leigos, pode ser difícil diferenciar uma espécie da outra. Para especialistas e, principalmente, os envolvidos na comercialização e no manuseio da pele de animais exóticos, não há como se enganar. Crocodilos e jacarés pertencem a famílias diferentes. O primeiro é um crocodilidae, denominação que abrange 14 espécies. Já os alligatoridae, vulgos jacarés, são distribuídos em oito tipos, entre eles o Caiman e o Paleosuchus, comuns no Brasil. Biologicamente, jacarés e crocodilos são diferentes no formato da cabeça e no alinhamento dos dentes. O Caiman latirostris também é encontrado em outros países da América do Sul, mede de 1,5 metro a 2,5 metros, e acredita-se que viva cerca de 50 anos.


O centímetro da pele do jacaré-do-papo-amarelo custa, aproximadamente, 2 euros a menos que a do crocodilo. No mercado internacional, a pele do Crocodilo porosus (o mais conhecido e com criação silvestre) custa, aproximadamente, 24 euros o centímetro. Já o Caiman latirostris é comercializado por 22 euros o centímetro (sempre medidos na largura máxima da barriga do animal abatido, de acordo com a prática internacional). Entretanto, a pele do crocodilo é aproveitada apenas em 70%, enquanto a do jacaré brasileiro tem 100% de aproveitamento. “Nossos animais têm pele macia e delicada devido à criação em estufa e cativeiro”, garante Cristina, da Mister Cayman. “A pele do crocodilo é mais dura”. 


 



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